quarta-feira, 13 de março de 2013

A Cabana- Capítulo 11 – Olha o juiz aí, gente

Quem decidir se colocar como juiz da Verdade e do
Conhecimento é
naufragado pela gargalhada dos deuses.
— Albert Einstein

Ah, minha alma, prepare-se para encontrar Aquele
que sabe
fazer perguntas.
— T. S. Eliot

Mack seguiu a trilha, que serpenteava, passando pela
cachoeira, afastando-se do lago, e atravessou um denso bosque de
cedros. Demorou menos de cinco minutos para chegar a
um impasse. O caminho o levou diretamente até a face de uma
rocha onde havia a leve silhueta de uma porta praticamente
invisível. Obviamente ele devia entrar, por isso estendeu a
mão, hesitando, e empurrou. Sua mão simplesmente penetrou na
parede e Mack continuou a se mover cautelosamente adiante até
todo o seu corpo passar pelo que parecia o sólido exterior de
pedra da montanha. Dentro, a escuridão era tão espessa que ele
nada via.
Respirando fundo e com as mãos estendidas à frente do
corpo, aventurou-se dando pequenos passos na escuridão total e
parou. O medo o dominou e ele respirava com dificuldade, sem
saber se deveria prosseguir ou não. Enquanto seu estômago se
apertava, sentiu de novo a Grande Tristeza pousando pesadamente
em seus ombros, quase o sufocando. Queria
voltar desesperadamente para a luz, mas acreditava que Jesus não
iria mandá-lo para ali sem um bom propósito. Foi em frente.
Devagar, seus olhos se acostumaram com as sombras
profundas e foi possível perceber um corredor se curvando à
esquerda. Enquanto seguia por ele, surgiu uma leve luminosidade
que se refletia nas paredes, vinda de algum lugar à frente.
A menos de 30 metros o túnel virou abruptamente para a
esquerda e Mack se viu na borda do que imaginou ser uma
caverna enorme. A ilusão era ampliada pela única luz presente,
um leve fulgor que o envolvia, mas se dissipava a menos de 3
metros em todas as direções. Para além disso não conseguia ver
nada, somente o negrume. O ar era pesado e opressivo, com um
frio de tirar o fôlego. Olhou para baixo e ficou aliviado
ao vislumbrar o leve reflexo de uma superfície — não a terra e a
rocha do túnel, mas um piso liso e escuro como mica polida.
Dando corajosamente um passo à frente, notou que o círculo
de luz se movia com ele, iluminando um pouco mais a área
adiante. Sentindo-se mais confiante, começou a andar lenta e
deliberadamente na direção para a qual estivera virado,
concentrando-se no chão.
Estava tão ligado nos próprios pés que trombou num objeto e
quase caiu.
Era uma cadeira de madeira, de aparência confortável, no
meio de... nada. Mack decidiu rapidamente sentar-se e esperar. Ao
fazer isso, a luz que o havia ajudado continuou a se mover à frente
como se ele ainda estivesse andando. Logo adiante pôde ver
uma escrivaninha de ébano, de tamanho considerável,
completamente vazia. E deu um pulo quando a luz se concentrou
num ponto e finalmente ele a viu. Atrás da mesa se
encontrava uma mulher alta, linda, de pele morena, com feições
hispânicas bem marcadas, vestindo um manto largo de cores
escuras. Estava sentada ereta e regia como um juiz da suprema
corte.
Sua beleza era estonteante.
"Ela é a beleza", pensou ele. "Tudo que a sensualidade luta
para ser mas fica muito longe de conseguir." À luz fraca era difícil
ver onde seu rosto começava, como se o cabelo e o manto
emoldurassem as feições e se fundissem nelas. Os olhos brilhavam
e luziam como se fossem portais para a vastidão do céu estrelado,
refletindo alguma fonte de luz desconhecida dentro da mulher.
Mack não ousou falar, com medo de que sua voz fosse
engolida pela intensidade do ambiente. Pensou: "Sou o
camundongo Mickey em vias de falar com Pavarotti."
O pensamento o fez sorrir. Como se de algum modo o tivesse
ouvido, a mulher sorriu de volta e o lugar clareou nitidamente. Foi
o necessário para Mack entender que era esperado e bem-vindo. A
mulher parecia estranhamente familiar, como se ele a tivesse
conhecido ou vislumbrado em algum lugar no passado, apesar de
saber que nunca a vira nem se encontrara com ela de verdade.
— Será que posso perguntar... quem é você? — disse Mack
desajeitado, a voz mal deixando uma impressão no silêncio da
sala, mas depois permanecendo como a sombra de um eco.
Ela ignorou a pergunta.
— Você sabe por que está aqui? — Como uma brisa varrendo
a poeira, a voz dela afastou a pergunta de Mack para fora da sala.
Ele quase podia sentir as palavras chovendo sobre sua cabeça e se
dissolvendo na coluna vertebral, lançando arrepios deliciosos para
todos os lados. Estremeceu e decidiu que não queria falar. Só
desejava que ela falasse, com ele ou com qualquer um, desde que
ele a ouvisse. Mas a mulher esperou.
— Você sabe — disse ele baixinho, surpreso com a sonoridade
da própria voz e convicto de que dizia a verdade. — Eu não faço
idéia — acrescentou, voltando o olhar para o chão. — Ninguém me
disse.
— Bem, Mackenzie Allen Phillips — ela riu, fazendo-o
levantar os olhos rapidamente. — Estou aqui para ajudá-lo.
Se um arco-íris ou uma flor desabrochando fizessem som,
esse seria o som do riso dela. Era uma chuva de luz, um convite
para falar, e Mack riu com ela, sem mesmo saber ou se importar
por quê.
De novo houve silêncio, e o rosto da mulher, embora
permanecesse suave, assumiu uma intensidade feroz, como se ela
pudesse olhar no fundo dele, para além dos fingimentos e
fachadas, até os lugares dos quais raramente se fala, se é que se
fala.
— Hoje é um dia muito sério, com conseqüências sérias. —
Ela fez uma pausa, como para dar peso às suas palavras
nitidamente pesadas. — Mackenzie, você está aqui em parte
por causa de seus filhos, mas também está aqui por...
— Meus filhos? — interrompeu Mack. — Como assim, estou
aqui por causa dos meus filhos?
— Mackenzie, você ama seus filhos de um modo que seu pai
jamais conseguiu amar você e suas irmãs.
— Claro que amo meus filhos. Todo pai ama os filhos. Mas
por que isso tem a ver com o motivo de eu estar aqui?
— Em certo sentido, todo pai ama os filhos — respondeu ela,
ignorando a segunda pergunta. — Mas alguns pais estão
machucados demais para amá-los bem, e outros mal conseguem
amá-los, você deveria saber disso. Mas você ama seus filhos bem,
muito bem.
— Aprendi muito disso com Nan.
— Sabemos. Mas aprendeu, não foi?
— Acho que sim.
— Dentre os mistérios de uma humanidade ferida, este
também é bastante notável: aprender, permitir a mudança. — Ela
era calma como um mar sem vento. — Então, Mackenzie, qual de
seus filhos você mais ama?
Mack sorriu por dentro. Era uma pergunta que ele se fizera
muitas vezes sem encontrar resposta.
— Não amo nenhum mais do que os outros. Amo cada um de
um modo diferente — disse, escolhendo as palavras com cuidado.
— Explique isso, Mackenzie — pediu ela com interesse.
— Bom, cada um dos meus filhos é único, tem uma
personalidade especial. E essa condição única provoca uma reação
única em mim.
Mack se recostou na cadeira.
— Lembro-me de quando Jon, o primeiro, nasceu. Fiquei tão
maravilhado com aquele ser tão pequeno e frágil que na verdade
me preocupei, pensando se me restaria amor para um segundo
filho. Mas, quando Tyler chegou, foi como se trouxesse com ele um
presente maravilhoso para mim, toda uma nova capacidade de
amá-lo especialmente. Pensando bem, é como quando Papai diz
que gosta de modo especial de alguém. Quando penso em cada um
dos meus filhos individualmente, descubro que gosto
especialmente de cada um.
— Muito bem, Mackenzie! — A apreciação dela era tangível e
ela prosseguiu, inclinando-se um pouco, com o tom ainda suave,
porém sério. — Mas e quando eles não se comportam, ou quando
fazem escolhas diferentes das que você gostaria que fizessem, ou
quando são agressivos e grosseiros? E quando eles o embaraçam
na frente dos outros? Como isso afeta seu amor por eles?
Mack respondeu lenta e decididamente:
— Na verdade, não afeta. — Ele sabia que estava sendo
sincero, mesmo que algumas vezes Katie não acreditasse. —
Admito que isso me incomoda e algumas vezes fico sem graça ou
com raiva, mas, mesmo quando eles agem mal, ainda são meus
filhos e serão para sempre. O que fazem pode afetar meu orgulho,
mas não meu amor.
Ela se recostou, rindo de orelha a orelha.
— Você é sábio em termos de amor verdadeiro, Mackenzie.
Muitos acreditam que é o amor que cresce, mas é o conhecimento
que cresce, e o amor simplesmente se expande para contê-lo. O
amor é simples mente a pele do conhecimento. Mackenzie, você
ama seus filhos que conhece tão bem com um amor maravilhoso e
verdadeiro.
Meio sem graça com o elogio, Mack baixou o olhar.
— Bem, obrigado, mas não sou assim com muitas outras
pessoas. Meu amor tende a ser bastante condicional na maior
parte do tempo.
— Mas isso é um começo, não é, Mackenzie? E você não
ultrapassou sozinho a incapacidade de seu pai. Foram Deus e
você, juntos, que causaram essa mudança, para que você pudesse
amar desse modo. E agora você ama seus filhos praticamente
como o Pai ama os dele.
Mack percebeu seu maxilar se apertando e sentiu de novo a
raiva começar a crescer. O que deveria ter sido um elogio
tranqüilizador parecia mais uma pílula amarga que agora ele se
recusava a engolir. Tentou relaxar para encobrir as emoções, mas,
pela expressão dela, soube que era inútil.
— Hummm — murmurou a mulher. — Algo que eu disse
incomodou você, Mackenzie? — Dessa vez o olhar dela o deixou
desconfortável.
Mack sentiu-se exposto. O silêncio que se seguiu à pergunta
pairava no ar. Mack lutou para manter a compostura. Podia ouvir
o conselho de sua mãe ressoando nos ouvidos: "Se não tiver nada
de bom para dizer, não diga nada."
— Ah... bem, não! Na verdade, não.
Mackenzie — instigou ela —, este não é um momento para
usar o bom senso da sua mãe. É um momento de honestidade, de
verdade. Você não acredita que o Pai ame bem seus filhos, não é?
Você não acredita realmente que Deus seja bom, não é?
— Missy é filha dele? — perguntou Mack rispidamente.
— Claro!
— Então, não! — respondeu ele bruscamente, levantando-se.
— Não acredito que Deus ame todos os seus filhos muito bem!
Tinha dito, e agora a acusação ecoava nas paredes que
poderiam existir na câmara. Enquanto Mack estava ali parado,
com raiva e pronto para explodir, a mulher permaneceu calma e
sem alterar a postura. Lentamente, levantou-se da cadeira
de encosto alto, passou em silêncio por trás dele e o chamou.
— Por que não se senta aqui?
Ele encarou-a com sarcasmo, mas não se mexeu.
— Mackenzie. — Ela permaneceu de pé atrás da cadeira. —
Antes comecei a dizer por que você está aqui hoje. Não somente
por causa dos seus filhos. Está aqui para o julgamento.
Enquanto a palavra ecoava na câmara, o pânico subiu por
dentro de Mack como um maremoto e lentamente ele se deixou
afundar na cadeira. Lembranças se derramavam da mente como
ratos fugindo da enchente e no mesmo instante ele se sentiu
culpado. Segurou os braços da cadeira, tentando encontrar algum
equilíbrio, inundado por imagens e emoções. Seus fracassos como
ser humano subitamente se tornaram enormes e no fundo da
mente quase pôde ouvir uma voz entoando uma lista crescente e
apavorante de pecados.
Não tinha defesa. Sabia que estava perdido.
— Mackenzie? — começou ela, mas ele a interrompeu.
— Agora entendo. Estou morto, não estou? Por isso consigo
ver Jesus e Papai, porque estou morto. — Ele se recostou e olhou
para a escuridão, sentindo-se nauseado. — Não acredito! Não senti
nada. — Olhou para a mulher, que o observava com paciência. —
Há quanto tempo estou morto?
— Mackenzie, lamento desapontá-lo, mas você ainda não caiu
no sono no seu mundo, e acredito que se enga...
De novo Mack a interrompeu: — Não estou morto? —
Incrédulo, levantou-se de novo. — Quer dizer que tudo isto é real
e ainda estou vivo? Mas você disse que eu tinha vindo aqui para
ser julgado.
— Disse, sim — declarou ela em tom casual, com uma
expressão divertida. — Mas Macken...
— Julgamento? E nem estou morto? — Pela terceira vez ele a
interrompeu, com a raiva substituindo o pânico. — Não é justo! —
Ele sabia que suas emoções não estavam ajudando. — Isso
acontece com outras pessoas? Quero dizer, ser julgado antes
mesmo de morrer? E se eu mudar? E se eu for melhor pelo resto
da vida? E se me arrepender? E aí?
— Há alguma coisa da qual você queira se arrepender,
Mackenzie? — perguntou ela, sem se abalar com a explosão.
Mack sentou-se de novo, lentamente. Olhou a superfície lisa
do chão e balançou a cabeça antes de responder.
— Eu não saberia por onde começar — murmurou. — Sou
uma confusão, não é?
— É, sim. — Mack levantou os olhos e ela sorriu. — Você é
uma confusão gloriosa e destrutiva, Mackenzie, mas não está aqui
para se arrepender, pelo menos não do modo como entende o
arrependimento. Mackenzie, você não está aqui para ser julgado.
— Mas — interrompeu ele de novo. — Achei que você disse
que eu vim...
— ... aqui para o julgamento? — Ela permaneceu fresca e
plácida como uma brisa de verão enquanto completava a pergunta
dele. — Disse. Mas você não está em julgamento.
Mack respirou fundo, aliviado com as palavras.
— Você será o juiz.
O nó no estômago retornou quando ele percebeu o que ela
dissera. Por fim baixou os olhos para a cadeira que o esperava.
— O quê? Eu? — Fez uma pausa. — Não tenho nenhuma
capacidade de julgar.
— Ah, não é verdade — foi a resposta rápida, agora tingida
por um leve sarcasmo. — Você já se mostrou bastante capaz,
mesmo no pouco tempo que passamos juntos. E, além disso, já
julgou muitas pessoas durante a vida. Julgou os atos e até mesmo
as motivações dos outros, como se soubesse quais eram. Julgou a
cor da pele, a linguagem corporal e o odor pessoal. Julgou
histórias e relacionamentos. Até julgou o valor da vida de
uma pessoa segundo seu conceito de beleza. Em todos os sentidos,
você é bastante treinado nessa atividade.
Mack sentiu a vergonha avermelhando seu rosto. Tinha de
admitir que já fizera um bocado de julgamentos. Mas não era
diferente de mais ninguém, era? Quem não julga impulsivamente
as ações e intenções dos outros? Ao levantar os olhos, viu-a
espiando-o com atenção e rapidamente voltou a olhar para baixo.
— Diga — pediu ela —, se é que posso perguntar: qual é o
critério pelo qual você baseia seus julgamentos?
Mack tentou encará-la, mas descobriu que quando a olhava
diretamente seu pensamento oscilava. Teve de desviar os olhos
para a escuridão do canto a sala, esperando recuperar o controle.
— Nada que pareça fazer muito sentido neste momento —
admitiu finalmente, com a voz embargada. — Confesso que quando
fiz aqueles julgamentos eu me sentia bastante justificado, mas
agora...
— Claro que se sentia. — Ela afirmou como uma declaração,
como algo rotineiro, sem registrar sequer por um momento a
evidente vergonha e perturbação dele. — Julgar exige que você se
considere superior a quem você julga. Bom, hoje você terá a
oportunidade de colocar toda a sua capacidade em uso. Venha —
disse ela, dando um tapinha no encosto da cadeira. — Quero que
se sente aqui. Agora.
Hesitando, ele foi obedientemente até ela e a cadeira que o
esperava. A cada passo parecia ficar menor. Subiu com dificuldade
na cadeira e sentiu-se infantil, os pés mal tocando o chão.
— E exatamente o que vou julgar? — perguntou, virando-se
para olhá-la.
— Não o quê. — Ela foi para o lado da mesa. — Quem.
O desconforto de Mack crescia aos saltos e sentar-se numa
cadeira solene e grande demais não ajudava. Que direito ele tinha
de julgar alguém? Claro, de certa forma era culpado de julgar
praticamente todo mundo que conhecera e muitos desconhecidos.
Mack sabia que era totalmente culpado de ser egocêntrico.
Como é que ele ousava julgar alguém? Todos os seus julgamentos
haviam sido superficiais, baseados na aparência e nos atos,
motivados por preconceitos, estados de espírito ou por
sua necessidade de sentir-se melhor ou superior. Estava
começando a entrar em pânico.
— Sua imaginação — ela interrompeu seus pensamentos —
não vai ajudá-lo muito neste momento.
"Não brinca, Sherlock!" ele pensou ironicamente, mas tudo
que saiu de sua boca foi: — Não posso fazer isso.
— Sua capacidade de fazer isso ou não ainda não foi
determinada — disse ela com um sorriso. — E meu nome não é
Sherlock.
Mack sentiu-se grato pela sala escura que escondia seu
embaraço. O silêncio que se seguiu pareceu mantê-lo cativo por
muito mais tempo do que os poucos segundos necessários para
encontrar a voz e finalmente fazer a pergunta:
— Então quem devo julgar?
— Deus — ela fez uma pausa — e a raça humana. — Disse
como se isso não tivesse importância especial. As palavras
simplesmente rolaram de sua língua, como se fosse
um acontecimento cotidiano.
Mack ficou aparvalhado.
— Você só pode estar brincando! — exclamou.
— Por que não? Sem dúvida há muitas pessoas no seu
mundo que você acha que merecem julgamento. Deve haver pelo
menos algumas culpadas por boa parte da dor e do sofrimento,
não é? Que tal os gananciosos que exploram os pobres do mundo?
Que tal os que promovem as guerras? Que tal os homens que
agridem as mulheres, Mackenzie? Que tal os pais que batem nos
filhos sem qualquer motivo além de aplacar seu
próprio sofrimento? Eles não merecem julgamento, Mackenzie?
Mack percebia a profundidade de sua raiva não resolvida
subir como um jorro de fúria. Afundou na cadeira tentando manter
o equilíbrio abalado por um tiroteio de imagens, mas podia sentir o
controle se esvaindo. Seu estômago deu um nó enquanto ele
fechava os punhos, com a respiração curta e rápida.
— E que tal o homem que é um predador de menininhas
inocentes? Que tal ele, Mackenzie? Esse homem é culpado? Ele
deve ser julgado?
— Deve! — gritou Mack. — Deve ser mandado para o inferno!
— Ele é culpado da sua perda?
— É!
— E o pai dele, o homem que deformou o filho até que ele se
transformasse num terror? E ele?
— É, ele também!
— Até onde devemos voltar, Mackenzie? Esse legado de
deformação remonta até Adão. E ele? Mas por que pararmos aqui?
E Deus? Deus começou essa coisa toda. Deus deve ser culpado?
Mack estava tonto. Não se sentia de modo algum um juiz, e
sim um réu sendo julgado.
A mulher não se aplacava.
— Não é aí que você está travado, Mackenzie? Não é isso que
alimenta a Grande Tristeza? O fato de não poder confiar em Deus?
Sem dúvida, um pai como você pode julgar o Pai!
De novo a raiva dele subiu como uma chama gigantesca.
Queria golpear alguma coisa, mas ela estava certa e não havia
sentido em negar. A mulher prosseguiu:
— Sua reclamação não é justa, Mackenzie? O fato de Deus ter
fracassado com você, ter fracassado com Missy? O fato de, antes
da Criação, Deus saber que um dia sua Missy seria brutalizada e
mesmo assim a ter criado? E depois permitir que aquela alma
deturpada a arrancasse de seus braços amorosos quando tinha
poder para impedir? Deus não deve ser culpado, Mackenzie?
Mack olhava para o chão, com uma avalanche de imagens
empurrando seus sentimentos em todas as direções. Por fim falou,
mais alto do que pretendia, e apontou o dedo diretamente para ela.
— Sim! A culpa é de Deus! — A acusação pairou no ar
enquanto o martelo de juiz batia em seu coração.
— Então — disse ela em tom definitivo —, se você pode julgar
Deus com tanta facilidade, certamente pode julgar o mundo. —
Sua voz não expressava emoção. — Você deve escolher dois de
seus filhos para passar à eternidade no novo Céu e na nova Terra
de Deus, mas apenas dois.
— O quê? — explodiu ele, incrédulo.
— E você deve escolher três filhos para passar a eternidade
no inferno.
Mack não podia acreditar no que estava ouvindo e começou a
entrar em pânico.
— Mackenzie. — Agora a voz dela veio tão calma e
maravilhosa quanto na primeira vez em que ele a havia escutado.
— Só estou lhe pedindo para fazer uma coisa que você acredita que
Deus faz. Ele conhece todas as pessoas já concebidas e muito mais
profunda e claramente do que você jamais conhecerá seus filhos.
Ele ama cada um segundo o que conhece do ser desse filho ou
dessa filha. Você acredita que ele irá condenar a maioria a uma
eternidade de tormento, para longe de Sua presença e de Seu
amor. Não é verdade?
— Acho que sim. Simplesmente nunca pensei na coisa desse
modo. — Ele tropeçava nas palavras, chocado. — Simplesmente
achei que, de algum modo, Deus poderia fazer isso. Falar sobre o
inferno era uma espécie de conversa abstrata e não sobre alguém
de quem eu realmente... — Mack hesitou — ... e não sobre alguém
de quem eu realmente gostasse.
— Então você acha que Deus faz isso com facilidade, mas
você não? Ande, Mackenzie. Quais de seus cinco filhos você
condenará ao inferno? Katie é a que está em maior conflito com
você agora. Ela o trata mal e lhe disse coisas dolorosas. Talvez ela
seja a primeira escolha, a mais lógica. Que tal ela? Você é o juiz,
Mackenzie, e deve escolher.
— Não quero ser juiz — disse ele, levantando-se. A mente de
Mack disparava. Isso não podia ser real. Como Deus seria capaz de
pedir que ele escolhesse entre os próprios filhos?
Era absolutamente impossível condenar Katie ou qualquer
um dos outros a uma eternidade no inferno simplesmente porque
ela havia pecado contra ele. Mesmo que Katie, Josh, Jon ou Tyler
cometessem algum crime hediondo, ele não faria isso. Não podia!
Para ele, isso não tinha relação com o desempenho dos filhos.
Tinha a ver com seu amor por eles.
— Não posso fazer isso — disse baixinho.
— Você deve.
— Não posso fazer isso — disse mais alto e veemente.
— Você deve — repetiu ela, com a voz mais suave.
— Eu... não... vou... fazer... isso! — gritou Mack, com o
sangue fervendo por dentro.
— Você deve — sussurrou ela.
— Não posso. Não posso. Não vou! — gritou ele, e agora as
palavras e emoções saíram num jorro. A mulher simplesmente
ficou parada, esperando. Por fim ele a encarou, implorando com os
olhos. — Eu não posso ir no lugar deles? Se vocês precisam de
alguém para torturar por toda a eternidade, eu vou no lugar deles.
Pode ser? Eu poderia fazer isso? — Caiu aos pés dela, chorando e
implorando. — Por favor, deixe-me ir no lugar dos meus filhos, por
favor, eu ficaria feliz em... Por favor, estou implorando. Por favor...
Por favor...
— Mackenzie, Mackenzie — sussurrou a mulher, e suas
palavras vieram como um jato de água fria num dia de calor
brutal. Suas mãos tocaram gentilmente o rosto dele enquanto ela o
punha de pé. Olhando-a através de lágrimas turvas, ele pôde ver
que o sorriso da mulher era radiante. — Agora você está falando
como Jesus. Você julgou bem, Mackenzie. Estou orgulhosa!
— Mas eu não julguei nada — disse Mack, confuso.
— Ah, julgou sim. Você julgou que eles são merecedores de
amor, mesmo que isso lhe custe tudo. É assim que Jesus ama.
Quando Mack ouviu as palavras, pensou em seu novo amigo
esperando junto do lago.
— E agora você conhece o coração de Papai —
acrescentou ela —, que ama todos os filhos com perfeição.
No mesmo instante a imagem de Missy chamejou em sua
mente e ele ficou tenso. Sem pensar, sentou-se de novo na cadeira.
— O que aconteceu, Mackenzie? — perguntou ela.
Ele viu que não adiantaria esconder.
— Entendo o amor de Jesus, mas Deus é outra história. Não
acho que os dois sejam iguais, de modo nenhum.
— Você não gostou do tempo que passou com Papai? —
perguntou ela, surpresa.
— Não, eu amo Papai, quem quer que ela seja. Ela é incrível,
mas não é nem um pouco como o Deus que eu conheço.
— Talvez sua idéia de Deus esteja errada.
— Talvez. Simplesmente não vejo como Deus pudesse amar
Missy com perfeição.
— Então o julgamento continua? — disse ela com tristeza na
voz.
Isso fez Mack parar, mas apenas por um momento.
— O que eu deveria pensar? Simplesmente não entendo como
Deus poderia amar Missy e deixar que ela passasse por aquele
horror. Era uma menininha inocente. Não fez nada para merecer
aquilo.
— Eu sei.
Mack prosseguiu:
— Deus usou-a para me castigar pelo que eu fiz com o meu
pai? Isso não é justo. Ela não merecia. Nan não merecia. —
Lágrimas escorreram pelo rosto dele. — Eu poderia merecer, mas
elas, não.
— É esse o seu Deus, Mackenzie? Não é de espantar que você
esteja afogado na tristeza. Papai não é assim, Mackenzie. Ele não
está castigando você, nem Missy, nem Nan. Isso não foi feito por
ele.
— Mas ele não impediu.
— Não, não impediu. Ele não impede um monte de coisas que
lhe causam dor. O mundo de vocês está seriamente deturpado.
Vocês exigiram a independência e agora têm raiva daquele que os
amou o bastante para lhes dar o mundo. Nada é como deveria
ser, como Papai deseja que seja e como será um dia. Neste
momento seu mundo está perdido na escuridão e no caos, e coisas
horríveis acontecem com aqueles de quem ele gosta especialmente.
— Então por que ele não faz algo a respeito?
— Ele já fez...
— Quer dizer, o que Jesus fez?
— Você não viu os ferimentos em Papai também?
— Não entendi os ferimentos. Como ele pôde...
— Por amor. Ele escolheu o caminho da cruz, onde a
misericórdia triunfa sobre a justiça por causa do amor. Você
preferiria que ele tivesse escolhido a justiça para todo mundo?
Você quer justiça, "Meritíssimo Juiz"? — Ela sorriu ao dizer isso.
— Não, não quero — ele respondeu, baixando a cabeça. —
Não para mim e não para meus filhos.
Ela esperou.
— Mas ainda não entendo por que Missy teve de morrer.
— Ela não teve, Mackenzie. Isso não foi nenhum plano de
Papai. Papai nunca precisou do mal para realizar seus bons
propósitos. Foram vocês, humanos, que abraçaram o mal, e Papai
respondeu com bondade. O que aconteceu com Missy foi trabalho
do mal e ninguém no seu mundo está imune a ele.
— Mas dói demais. Deve haver um modo melhor.
— Há. Você simplesmente não consegue ver agora. Retorne de
sua independência, Mackenzie. Desista de ser juiz de Papai e
conheça-o como ele é. Então, no meio de sua dor, você poderá
abraçar o amor dele, em vez de castigá-lo com sua percepção
egocêntrica de como você acha que o universo deveria ser. Papai se
arrastou para dentro de seu mundo para estar com vocês, para
estar com Missy.
Mack se levantou da cadeira.
— Não quero mais ser juiz. Realmente quero confiar em
Papai. — Sem que Mack notasse, a sala se iluminou de novo
enquanto ele se movia ao redor da mesa em direção à cadeira
simples onde tudo havia começado. — Mas vou precisar de ajuda.
Ela aproximou-se dele e o abraçou.
— Agora isso parece o início da viagem para casa, Mackenzie.
Parece mesmo.
O silêncio da caverna foi subitamente rompido pelo som de
risos de crianças. Parecia vir de uma das paredes que agora Mack
podia ver claramente à medida que a sala continuava a clarear.
Enquanto olhava naquela direção, a superfície da pedra foi
ficando cada vez mais translúcida e a luz do dia penetrou na
caverna. Espantado, Mack olhou pela névoa e finalmente
conseguiu vislumbrar as formas vagas de crianças brincando
à distância.
— O som parece ser dos meus filhos! — exclamou perplexo.
Enquanto ia em direção à parede, a névoa se dividiu, como se
alguém tivesse aberto uma cortina, e ele estava inesperadamente
olhando para uma campina, na direção do lago. Na sua frente
estava o pano de fundo das montanhas nevadas, perfeitas em sua
majestade, vestidas com florestas densas. E, aninhada ao pé, a
cabana onde ele sabia que Papai e Sarayu estariam à sua espera.
Um riacho largo surgia bem à sua frente e desaguava no lago junto
de campos de flores. Os sons de pássaros estavam em toda parte e
o perfume doce do verão pairava intenso no ar.
Tudo isso Mack viu, ouviu e cheirou num instante, mas então
seu olhar foi atraído para o grupo brincando perto do lugar onde o
rio desaguava no lago, a menos de 50 metros dali. Viu seus filhos:
Jon, Tyler, Josh e Kate. Mas espere! Havia mais alguém!
Ofegante, tentou focalizar melhor. Moveu-se na direção deles,
mas foi pressionado contra uma força que não via, como se a
parede de pedra ainda estivesse ali à sua frente, invisível. Então
ficou claro.
— Missy!
Lá estava ela, chutando a água com os pés descalços. Como
se tivesse escutado, Missy se separou do grupo e veio correndo
pela trilha que terminava diretamente diante dele.
— Ah, meu Deus! Missy! — gritou Mack e tentou avançar
através do véu que os separava. Para sua consternação, bateu
contra a força que não lhe permitia chegar mais perto, como se
algum magnetismo aumentasse em oposição ao seu esforço,
mandando-o de volta para a sala.
— Ela não pode ouvi-lo.
Mack não se importava.
— Missy! — gritou. Ela estava tão perto! A lembrança que
estivera se esforçando tanto para não perder, mas que sentia
lentamente se esvair agora, saltou de volta. Procurou algum tipo de
maçaneta, como se pudesse abrir alguma coisa e encontrar um
modo de chegar à filha. Mas não havia nada.
Enquanto isso, Missy havia chegado e estava parada bem
diante dele. O olhar dela se fixava em algo no meio, maior e
obviamente visível para ela, mas não para ele.
Finalmente Mack parou de lutar contra o campo de força e
virou-se para a mulher.
— Ela pode me ver? Ela sabe que estou aqui? — perguntou
desesperado.
— Ela sabe que você está aqui, mas não pode vê-lo. Do lado
onde se encontra, Missy está olhando para a linda cachoeira e
nada mais. Porém sabe que você está atrás dela.
— Cachoeiras! — exclamou Mack, rindo sozinho. — Ela adora
cachoeiras! — Agora Mack se concentrou na filha, tentando
memorizar de novo cada detalhe de sua expressão, do cabelo e das
mãos. Enquanto ele fazia isso, o rosto de Missy se abriu num
sorriso enorme, com as covinhas se destacando. Em câmara lenta,
ele pôde ver sua boca falando sem som:
— Está tudo bem, eu... — e ela fez sinais acompanhando as
palavras — ... te amo.
Era demais e Mack chorou de alegria. Mesmo assim não
conseguia parar de olhá-la, observando-a através de sua cachoeira
de lágrimas. Estar tão perto assim era doloroso, vê-la ali, com
aquele jeito tão característico de Missy.
— Ela está realmente bem, não está?
— Mais do que você imagina. Esta vida é apenas a ante-sala
para uma realidade maior que virá. Ninguém realiza plenamente
seu próprio potencial no seu mundo. É apenas um preparativo que
Papai tinha em mente o tempo todo.
— Posso ir até ela? Talvez só um abraço e um beijo? —
implorou baixinho.
— Não. É assim que ela queria.
— Ela queria assim? — Mack ficou confuso.
— É. A nossa Missy é uma criança muito sábia. Gosto
especialmente dela.
— Tem certeza de que ela sabe que estou aqui?
— Sim, tenho certeza — garantiu a mulher. — Ela estava
muito empolgada esperando este dia para brincar com os irmãos e
a irmã e estar perto de você. Ela gostaria que a mãe também
estivesse aqui, mas isso terá de esperar outra ocasião.
Mack se virou para a mulher.
— Meus outros filhos estão realmente aqui?
— Estão e não estão. Só Missy está realmente aqui. Os outros
estão sonhando e cada um terá uma vaga lembrança, alguns com
mais detalhes do que outros. Este é um momento muito pacífico de
sono para cada um, menos para Kate. Este sonho não será fácil
para ela. Mas Missy está totalmente acordada.
Mack ficou olhando cada movimento feito por sua preciosa
Missy.
— Ela me perdoou? — perguntou.
— Perdoou o quê?
— Eu falhei com ela — sussurrou ele.
— Seria da natureza dela perdoar se houvesse algo a perdoar,
mas não há.
— Mas eu não impedi que ele a levasse. Ele a levou enquanto
eu não estava prestando atenção... — sua voz ficou no ar.
— Se você se lembra, você estava salvando seu filho. Só você,
em todo o universo, acredita que tem alguma culpa. Missy não
acredita nisso, nem Nan, nem Papai. Talvez seja hora de
abandonar essa mentira. E, Mackenzie, mesmo que você fosse
culpado, o amor dela é muito mais forte do que a sua falha jamais
poderia ser.
Nesse momento alguém chamou o nome de Missy e Mack
reconheceu a voz. A menina gritou de prazer e começou a correr
em direção aos outros. De repente parou e correu de volta para o
pai. Fez o gesto de um grande abraço e, com os olhos fechados,
simulou um grande beijo. De trás da barreira ele a abraçou
também. Por um instante ela ficou totalmente imóvel, como se
soubesse que estava lhe dando um presente. Depois acenou, virouse
e correu para os outros.
E agora Mack pôde ouvir claramente a voz que havia
chamado sua Missy. Era Jesus brincando no meio de seus filhos.
Sem hesitar, Missy pulou no colo dele. Ele girou-a no ar duas
vezes antes de colocá-la de volta no chão, depois todo mundo riu e
saíram procurando pedras lisas para jogar ricocheteando na
superfície do lago. Os sons de exuberante alegria eram uma
sinfonia nos ouvidos de Mack e suas lágrimas correram livremente.
De súbito, sem aviso, a água veio rugindo de cima, bem à sua
frente, e obliterou toda a visão e as vozes de seus filhos.
Instintivamente ele saltou para trás. Então percebeu que as
paredes da caverna haviam se dissolvido ao redor e ele estava
numa gruta atrás da cachoeira.
Mack sentiu a mão da mulher nos ombros.
— Acabou? — perguntou ele.
— Por enquanto — respondeu ela com ternura. — Mackenzie,
julgar não é destruir, mas consertar as coisas.
Mack sorriu. — Não estou mais me sentindo travado. — Ela
o guiou gentilmente para a lateral da cachoeira, até que ele pôde
ver de novo — Jesus na margem do lago ainda jogando pedras.
— Acho que alguém está esperando você. — As mãos dela
apertaram seus ombros com suavidade, depois ela o soltou e, sem
olhar, Mack soube que ela fora embora. Ele passou
cuidadosamente sobre pedras escorregadias e rochas molhadas até
encontrar um caminho pela borda da cachoeira.
Atravessou a névoa revigorante da água que despencava e
retornou à luz do dia.
Exausto, mas profundamente realizado, Mack parou e fechou
os olhos por um momento, tentando gravar indelevelmente no
pensamento os detalhes da presença de Missy, esperando que nos
dias futuros pudesse trazer de volta cada momento com ela, cada
nuance e cada movimento.
E subitamente sentiu muita, muita falta de Nan.

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