quarta-feira, 13 de março de 2013

A Cabana- Capítulo 17 – Escolhas do coração

Não há sofrimento na Terra que o Céu não possa
curar.
— Autor desconhecido

Chegaram de volta ao chalé em pouco tempo. Jesus e Sarayu
esperavam perto da porta dos fundos. Jesus aliviou Mack
gentilmente do fardo e juntos foram à carpintaria onde ele
estivera trabalhando. Mack não entrava ali desde que chegara e
ficou surpreso com a simplicidade do lugar. A luz, atravessando
grandes janelas, captava e refletia o pó de madeira que ainda
pairava no ar. As paredes e as bancadas, cobertas com todo tipo de
ferramentas, estavam dispostas para facilitar as atividades da
carpintaria. Este era claramente o santuário de um mestre artesão.
À frente deles estava o trabalho que Jesus estivera fazendo,
uma obra de arte para guardar os restos de Missy. Ao examinar a
caixa, Mack reconheceu imediatamente os relevos na madeira.
Detalhes da vida de Missy estavam nela esculpidos. Havia um
relevo de Missy com seu gato, Judas, e outro com Mack sentado
numa cadeira lendo uma história para ela. Toda a família aparecia
em cenas trabalhadas na lateral e em cima: Nan e Missy fazendo
bolinhos, a viagem ao lago Wallowa com o teleférico subindo a
montanha e até Missy colorindo o livro na mesa do acampamento,
com uma representação caprichada do broche de joaninha que o
assassino deixara. Havia também um relevo exato de Missy de pé
sorrindo e olhando para a cachoeira, ciente de que seu pai estava
do outro lado. Entremeados com as cenas estavam as flores
e animais prediletos de Missy.
Mack abraçou Jesus e este lhe sussurrou ao ouvido:
— Foi Missy quem ajudou a escolher as cenas.
O abraço de Mack ficou mais forte e demorado.
— Temos o lugar perfeito preparado para o corpo dela — disse
Sarayu, que se aproximara. — Mackenzie, é no nosso jardim.
Com grande cuidado puseram os restos de Missy na caixa,
colocando-a num leito de grama e musgo macios, e depois
encheram com as flores e especiarias do embrulho de Sarayu.
Fecharam a tampa, Jesus e Mack pegaram as extremidades e
levaram o caixão para fora, seguindo Sarayu até o local do pomar
que Mack ajudara a limpar. Ali, entre cerejeiras e pessegueiros,
rodeado por orquídeas e lírios, fora aberto um buraco no
lugar onde Mack havia desenraizado os arbustos floridos na
véspera. Papai esperava-os. Assim que a caixa enfeitada foi posta
gentilmente no chão, ele deu um grande abraço em Mack, que
retribuiu com a mesma intensidade.
Sarayu se adiantou e disse com um floreio e uma reverência:
— Sinto-me honrada em cantar a canção que Missy compôs
exata mente para esta ocasião.
E começou a cantar com uma voz que parecia vento de
outono: um som de folhas balançando e florestas adormecendo
lentamente, tons da noite chegando e uma promessa de novos
dias. Era a cantiga insistente que ele ouvira Sarayu e Papai
cantarolarem antes.
Agora Mack escutava as palavras de sua filha:

Respire em mim... fundo,
Para que eu respire... e viva.
E me abrace apertado para eu dormir
Suavemente segura por tudo que você dá.
Venha me beijar, vento, e tire meu fôlego
Até que você e eu sejamos um só,
E dançaremos entre os túmulos
Até que toda a morte se vá.
E ninguém sabe que existimos
Nos braços um do outro,
A não ser Aquele que soprou o hálito
Que me esconde livre do mal
Venha me beijar, vento, e tire meu fôlego
Até que você e eu sejamos um só,
E dançaremos entre os túmulos
Até que toda a morte se vá.

Quando ela terminou houve silêncio, e depois Deus, todos os
três, disseram simultaneamente:
— Amém.
Mack ecoou o amém, pegou uma das pás e, com a ajuda de
Jesus, começou a encher o buraco, cobrindo o caixão onde
descansava o corpo de Missy.
Quando a tarefa terminou, Sarayu enfiou a mão dentro da
roupa e pegou seu frasco pequeno e frágil. Derramou algumas
gotas da preciosa coleção na mão e começou a espalhar as
lágrimas de Mack no solo rico e preto sob o qual dormia o corpo de
Missy. As gotas caíram como diamantes e rubis, e onde pousavam
brotavam flores instantaneamente, abrindo-se ao sol luminoso.
Então Sarayu parou um momento, olhando com intensidade
uma pérola que repousava em sua mão, uma lágrima especial, e
depois deixou-a cair no centro do terreno. Imediatamente
uma pequena árvore rompeu a terra e começou a se desdobrar,
jovem, luxuriante e espantosa, crescendo e amadurecendo até se
abrir em brotos e flores. Então Sarayu, no seu modo de
brisa sussurrante, virou-se e sorriu para Mack, que estivera
olhando hipnotizado.
— É uma árvore da vida, Mack, crescendo no jardim do seu
coração.
Papai chegou perto e pôs o braço em seu ombro.
— Missy é incrível, você sabe. Ela o ama muitíssimo.
— Sinto uma falta terrível dela... ainda dói demais.
— Eu sei, Mackenzie. Eu sei.
* * *
Era pouco mais de meio-dia quando os quatro retornaram do
jardim e entraram de novo no chalé. Não havia nada preparado na
cozinha nem qualquer comida sobre a mesa de jantar. Papai levouos
para a sala de estar, onde sobre a mesinha de centro havia
uma taça de vinho e um pão recém-assado. Sentaram-se todos,
menos Papai, que permaneceu de pé. Ele dirigiu suas palavras a
Mack.
— Mackenzie, temos uma coisa para você refletir. Enquanto
esteve conosco, você foi curado e aprendeu muito.
— Acho que isso é um eufemismo — riu Mack.
Papai sorriu.
— Você sabe o quanto nós gostamos de você. Mas agora há
uma escolha a ser feita. Você pode permanecer conosco e
continuar a crescer e aprender ou pode retornar à sua outra casa,
a Nan, seus filhos e amigos.
De qualquer modo, prometo que sempre estarei com você.
Mack se recostou e pensou.
— E Missy? — perguntou.
— Bom, se você optar por ficar, irá vê-la esta tarde. Ela virá
também. Mas, se escolher deixar este lugar, também estará
escolhendo deixar Missy para trás.
— Essa não é uma escolha fácil — Mack suspirou.
A sala ficou em silêncio durante vários minutos enquanto
Papai dava a Mack espaço para lutar com seus próprios
pensamentos e desejos. Por fim, ele perguntou:
— O que Missy iria querer?
— Embora adorasse ficar com você hoje, ela vive onde não há
impaciência. Ela não se incomoda em esperar.
— Eu adoraria ficar com ela. — Mack sorriu diante do
pensamento. — Mas seria muito duro para Nan e meus outros
filhos. Deixe-me perguntar uma coisa. O que eu faço lá em casa é
importante? Eu apenas trabalho e cuido de minha família e dos
amigos...
Sarayu o interrompeu:
— Mack, se alguma coisa importa, tudo importa. Como você é
importante, tudo que faz é importante. Todas as vezes que você
perdoa, o universo muda; cada vez que estende a mão e toca um
coração ou uma vida, o mundo se transforma; a cada gentileza
e serviço, visto ou não visto, meus propósitos são realizados e nada
jamais será igual.
— Certo — disse Mack em tom decidido. — Então vou voltar.
Não creio que ninguém vá acreditar na minha história, mas, se eu
voltar, sei que posso fazer alguma diferença, mesmo que seja
pequena. Há algumas coisas que eu preciso... é... que quero fazer
de qualquer modo. — Ele parou e olhou para cada um. — Vocês
sabem...
Todos riram.
— E realmente acredito que vocês nunca vão me deixar nem
me abandonar, por isso não estou com medo de voltar. Bom, talvez
um pouquinho.
— É uma escolha muito boa — disse Papai. Em seguida deu
um sorriso luminoso e sentou-se ao lado dele.
Sarayu parou diante de Mack e falou:
— Mackenzie, agora que você vai voltar, tenho mais um
presente para você levar.
— O que é? — perguntou Mack, curioso.
— É para Kate.
— Kate? — exclamou Mack, percebendo que ainda a levava
como um fardo no coração. — Por favor, diga.
— Kate acredita que é culpada pela morte de Missy.
Mack ficou pasmo. O que Sarayu acabava de dizer era óbvio
demais. Fazia sentido que Kate se culpasse. Ela havia erguido o
remo que provocara a seqüência de acontecimentos, permitindo
que Missy fosse seqüestrada. Ele não podia acreditar que esse
pensamento nunca lhe tivesse passado pela cabeça. Num instante
as palavras de Sarayu abriram uma nova perspectiva na luta de
Kate.
— Muito obrigado! — disse, com o coração cheio de gratidão.
Agora tinha certeza de que precisava voltar, nem que fosse
somente por Kate. Sarayu concordou e sorriu. Por fim Jesus se
levantou, foi até uma das prateleiras e apanhou a latinha de Mack.
— Mack, achei que você iria querer...
Mack a pegou e a manteve nas mãos por um momento.
— Na verdade, acho que não vou precisar mais disso. Pode
guardar para mim? Todos os meus melhores tesouros estão
escondidos em você, de qualquer modo. Quero que você seja a
minha vida.
— Eu sou — disse a clara e verdadeira voz da confirmação.
* * *
Sem qualquer ritual nem cerimônia, eles saborearam o pão
quente, compartilharam o vinho e riram lembrando os momentos
mais estranhos do fim de semana. Mack sabia que o tempo havia
acabado, que era hora de voltar e pensar num modo de contar
tudo a Nan.
Não tinha nada para guardar na bagagem. Seus poucos
pertences presumivelmente estavam de volta no carro. Tirou a
roupa de caminhada e vestiu aquelas com as quais tinha vindo,
recém-lavadas e muito bem dobradas. Quando terminou de se
vestir, pegou o casaco e deu uma última olhada em seu quarto
antes de sair.
— Deus, o servidor — ele riu, mas depois sentiu algo
crescendo por dentro de novo, enquanto o pensamento o fazia
parar. — É mais verdadeiramente Deus, meu servidor.
Quando Mack retornou à sala, os três haviam sumido. Uma
xícara de café fumegante o esperava perto da lareira. Ele não tivera
chance de dizer adeus, mas, ao pensar nisso, achou que se
despedir de Deus parecia meio idiota. Sentado no chão, de costas
para a lareira e tomando um gole de café, sorriu. Era maravilhoso
e ele pôde sentir o calor descendo pelo peito. De repente estava
exausto com a infinidade de emoções. Como se tivessem vontade
própria, seus olhos se fecharam e Mack escorregou suavemente
para um sono reconfortante.
A sensação seguinte foi de frio, dedos endurecidos se
enfiando pela roupa e gelando a pele. Acordou de um salto e
levantou-se desajeitadamente, com os músculos doloridos e rígidos
por ter ficado deitado no chão. Olhando ao redor, viu rapidamente
que tudo estava igual ao que era dois dias antes, até a mancha de
sangue perto da lareira onde estivera dormindo.
Pulou, correu pela porta quebrada e saiu para a varanda em
ruínas. De novo a cabana era velha e feia, com portas e janelas
enferrujadas e quebradas. O inverno cobria a floresta e a trilha que
levava ao jipe de Willie. Mal se via o lago através da vegetação
de urzes e espinheiros que o rodeavam. A maior parte do cais
estava afundada e apenas algumas das pilastras maiores
continuavam de pé. Estava de volta ao mundo real. Então sorriu.
Era mais como se estivesse de volta ao mundo irreal.
Apertou o casaco contra o corpo e retornou ao carro,
seguindo suas próprias pegadas ainda visíveis na neve. Foi
tranqüila a volta até Joseph, onde chegou no escuro de um fim de
tarde de inverno. Encheu o tanque, comeu comida de gosto normal
e tentou ligar para Nan, sem sucesso. Ela provavelmente estava na
estrada, disse a si mesmo, e a cobertura do celular podia ser
precária. Resolveu passar pela delegacia para falar com
Tommy, mas depois que um rápido exame não revelou qualquer
atividade lá dentro decidiu não entrar.
No cruzamento seguinte o sinal ficou vermelho e ele parou.
Estava cansado, mas em paz e estranhamente empolgado. Não
achava que teria qualquer problema para ficar acordado na longa
viagem para casa. Sentia-se ansioso para encontrar sua
família, especialmente Kate.
Perdido em pensamentos, simplesmente passou pelo
cruzamento quando o sinal ficou verde. Não viu o outro motorista
avançando o sinal vermelho da transversal. Houve apenas um
clarão luminoso e depois nada, a não ser silêncio e escuridão.
Numa fração de segundo o jipe vermelho de Willie foi
destruído, em minutos chegaram o resgate dos bombeiros e a
polícia e em horas o corpo ferido e inconsciente de Mack foi
entregue pelo resgate aéreo no Hospital Emmanuel em Portland,
Oregon.

Nenhum comentário:

Postar um comentário