terça-feira, 12 de março de 2013

A Cabana- Capítulo 2 – A escuridão se aproxima

Nada nos deixa tão solitários quanto nossos
segredos.
— Paul Tournier

Durante a noite um vento sudoeste soprou pelo vale de
Villamette, libertando a paisagem do aperto gélido da tempestade.
Em menos de 24 horas instalou-se um calor de início de verão.
Mack dormiu até tarde, um daqueles sonos sem sonhos que
parecem durar apenas um instante.
Quando finalmente se arrastou do sofá, surpreendeu-se ao
descobrir que as loucuras do gelo haviam se dissolvido tão
depressa, mas deliciou-se ao ver Nan e as crianças aparecerem
menos de uma hora depois. Primeiro veio a bronca previsível por
ele não ter posto as roupas sujas de sangue na lavanderia. Em
seguida, uma quantidade adequada de exclamações que
acompanharam o exame que ela fez no ferimento da cabeça. O
cuidado agradou imensamente a Mack e logo Nan o havia limpado,
remendado e alimentado. Mas não houve menção ao bilhete
sempre presente em sua mente. Ele ainda não sabia o que pensar
a respeito e não queria envolver Nan em algum tipo de piada cruel.
As pequenas distrações, como a tempestade de gelo, eram
uma trégua bem-vinda que afastava por instantes a presença
terrível de sua companheira constante: a Grande Tristeza, como ele
a chamava. Pouco depois do verão em que Missy desaparecera, a
Grande Tristeza havia pousado nos ombros de Mack como uma
capa invisível, mas quase palpável. O peso daquela presença
embotava seus olhos e curvava seus ombros. Até os esforços para
afastá-la eram exaustivos, como se os braços estivessem
costurados nas dobras escuras do desespero que agora, de algum
modo, tinha se tornado parte dele. Comia, trabalhava, amava,
sonhava e brincava sempre usando essa vestimenta, como se fosse
um roupão de chumbo.
Andava com dificuldade pela melancolia tenebrosa que
sugava a cor de tudo.
Às vezes ele podia sentir a Grande Tristeza se apertando
lentamente ao redor do peito e do coração, como os anéis
esmagadores de uma jibóia, espremendo líquido dos seus olhos até
ele achar que não existia mais nenhuma gota. Em outras ocasiões
sonhava que seus pés estavam presos em lama pegajosa, enquanto
tinha rápidos vislumbres de Missy correndo pelo caminho que
descia pela floresta à frente dele, o vestido vermelho de algodão
leve enfeitado pelas flores silvestres que piscavam entre as árvores.
Ela não fazia qualquer idéia da sombra escura que a seguia. Ainda
que Mack tentasse freneticamente gritar, nenhum som saía e ele
sempre chegava tarde demais e impotente demais para salvá-la.
Sentava-se empertigado na cama, o suor pingando do corpo
torturado, enquanto ondas de náusea, culpa e arrependimento
rolavam sobre ele como um maremoto surreal.
A história do desaparecimento de Missy infelizmente não é
como outras que a gente costuma ouvir. Tudo aconteceu no fim de
semana do Dia do Trabalho, o último brado de alegria do verão
antes de outro ano de escola e rotinas de outono. Mack decidiu
corajosamente levar as três crianças menores para um último
acampamento no lago Walowa, no Nordeste do Oregon. Nan já
estava inscrita num curso de reciclagem em Seattle, um dos dois
garotos mais velhos havia retornado à faculdade e o outro estava
trabalhando como monitor num acampamento de verão. Mas Mack
confiava na própria capacidade de combinar corretamente
conhecimentos de sobrevivência ao ar livre e habilidades maternas.
Afinal, Nan era uma boa professora e ele, um aluno aplicado.
O sentimento de aventura e a euforia do acampamento
tomaram conta de todos, e a casa virou um redemoinho de
atividades. Num determinado ponto da confusão, Mack decidiu
que precisava de uma trégua e se acomodou na cadeira do papai
depois de expulsar Judas, o gato da família. Já ia ligar a TV
quando Missy entrou correndo, segurando sua caixinha de plástico
transparente.
— Posso levar minha coleção de insetos para acampar com a
gente? — perguntou.
— Quer levar seus bichos? — grunhiu Mack, sem prestar
muita atenção.
— Pai, eles não são bichos. São insetos. Olha, tenho um
monte aqui.
Relutante, Mack deu atenção à filha, que, vendo-o
concentrado, começou a explicar o conteúdo do seu "baú" do
tesouro.
— Olha, tem dois gafanhotos. E olha aquela folha, é a minha
lagarta, e em algum lugar por aí... Ali! Está vendo minha joaninha?
E tenho uma mosca em algum lugar e umas formigas.
Enquanto ela fazia o inventário da coleção, Mack se esforçou
ao máximo para demonstrar que estava atento, balançando a
cabeça.
— Então — terminou Missy. — Você deixa eu levar?
— Claro que sim, querida. Talvez a gente possa soltá-los na
floresta quando estivermos lá.
— Não pode, não! — veio uma voz da cozinha. — Missy, você
tem de deixar a coleção em casa, querida. Acredite, eles estão mais
seguros aqui. — Nan esticou a cabeça pela quina da parede e
franziu a testa amorosamente para Mack, enquanto ele encolhia os
ombros.
— Eu tentei, querida — sussurrou ele para Missy.
— Grrr — rosnou Missy. E, sabendo que a batalha estava
perdida, pegou a caixa e saiu.
Na noite de quinta-feira a van estava lotada e a carretabarraca
de reboque presa, com luzes e freios testados. Na sexta de
manhã, depois de um último sermão de Nan para os filhos sobre
segurança, obediência, escovar os dentes de manhã, não pegar
gatos com listras brancas nas costas e todo tipo de outras coisas,
todos saíram: Nan para o norte e Mack e os três mosqueteiros para
o leste. O plano era voltar na noite de terça-feira, véspera do
primeiro dia de aula.
Mack e os filhos pararam na cachoeira Multnomah para
comprar um livro de colorir e lápis de cor para Missy e duas
máquinas fotográficas descartáveis e à prova d'água para Kate e
Josh. Depois decidiram subir a curta distância da trilha até a
ponte diante da cachoeira. Antigamente havia um caminho
rodeando o poço principal e entrando numa caverna rasa atrás da
queda-d'água, mas infelizmente ele tinha sido bloqueado pelas
autoridades do parque por causa da erosão. Missy adorava o lugar
e implorou ao pai para contar a lenda da bela jovem índia, filha de
um chefe da tribo Multnomah. Foi preciso um pouco de
insistência, mas por fim Mack cedeu e recontou a história
enquanto olhavam para a névoa que envolvia a cachoeira.
A história falava de uma princesa, a única filha que restava
ao pai idoso. O chefe adorava a filha e escolheu com cuidado um
marido para ela: um jovem chefe guerreiro da tribo Clatsop que a
amava. As duas tribos se juntaram para as comemorações do
casamento. Mas, antes do começo da festa, uma doença terrível
começou a matar muitos homens.
Os anciãos e os chefes se reuniram para discutir o que
poderiam fazer contra a doença devastadora que dizimava
rapidamente seus guerreiros. O curandeiro mais velho contou que
seu pai, perto de morrer, já bem idoso, havia previsto uma doença
terrível que mataria seus homens, uma doença que só poderia ser
vencida se a filha de um chefe, pura e inocente, oferecesse de boa
vontade a vida pelo seu povo. Para realizar a profecia, ela deveria
subir voluntariamente num penhasco acima do Grande Rio e pular
para a morte nas rochas abaixo.
Uma dúzia de jovens, todas filhas dos vários chefes, foram
trazidas diante do Conselho. Depois de demorados debates, os
anciãos decidiram que não poderiam pedir um sacrifício tão
precioso, sobretudo porque não sabiam se a lenda era verdadeira.
Mas a doença continuou se espalhando implacável entre os
homens, e finalmente o jovem chefe guerreiro, o futuro esposo,
caiu doente. A princesa, que o amava muito, soube no fundo do
coração que algo precisava ser feito e, depois de lhe dar um leve
beijo na testa, afastou-se.
Demorou toda a noite e todo o dia seguinte para chegar ao
local indicado na lenda, um penhasco altíssimo acima do Grande
Rio e das terras mais além. Depois de rezar e se entregar ao
Grande Espírito, ela cumpriu a profecia sem hesitar, pulando para
a morte nas rochas abaixo.
Nas aldeias, na manhã seguinte, os doentes se levantaram
saudáveis e fortes. Houve grande júbilo e comemoração, até que o
jovem guerreiro descobriu que sua adorada noiva havia sumido. À
medida que a percepção do que acontecera se espalhava
rapidamente entre o povo, muitos empreenderam a jornada até o
lugar onde sabiam que iriam encontrá-la. Enquanto se reuniam
em silêncio ao redor do corpo destroçado na base do penhasco, seu
pai, tomado pelo sofrimento, gritou para o Grande Espírito,
pedindo que o sacrifício dela fosse lembrado para sempre. Nesse
momento, do lugar de onde ela havia pulado começou a jorrar
água, transformando-se numa névoa fina que caía aos pés deles,
lentamente formando um lago maravilhoso.
Normalmente, Missy adorava a história. A narrativa possuía
todos os elementos de um verdadeiro conto de redenção, não muito
diferente da história de Jesus que ela conhecia tão bem. Falava de
um pai que amava a filha única e de um sacrifício anunciado por
um profeta. Por causa do amor, a jovem escolheu dar sua vida
para salvar o noivo e as tribos da morte certa.
Mas, dessa vez, Missy ficou quieta quando a história
terminou. Virou-se imediatamente e dirigiu-se para a van, como se
dissesse: "Tudo bem, não tenho mais nada para fazer aqui. Vamos
indo."
Deram uma parada rápida para um lanche junto ao rio Hood,
depois voltaram para a auto-estrada que iria levá-los pelos últimos
115 quilômetros até a cidade de Joseph. O lago o local de
acampamento ficavam poucos quilômetros depois de Joseph.
Quando chegaram, arrumaram tudo — não exatamente como Nan
teria preferido, mas do jeito que lhes pareceu melhor.
Naquele fim de tarde, sentado entre as três crianças que riam
assistindo a um dos maiores espetáculos da natureza, o coração de
Mack foi subitamente inundado por uma alegria inesperada. Um
pôr-do-sol de cores e padrões brilhantes destacava as poucas
nuvens que haviam esperado nas coxias para se tornarem os
atores centrais nessa apresentação única.
Ele era um homem rico, pensou, em todos os sentidos que
mais importavam.
Quando acabaram de limpar os restos do jantar, a noite havia
caído. Os cervos tinham ido para o lugar onde dormem. Seu turno
foi substituído pelos encrenqueiros noturnos: guaxinins, esquilos e
tâmias, que perambulavam em bandos procurando qualquer
recipiente ligeiramente aberto. Os Phillips sabiam disso por
experiência própria. A primeira noite que tinham passado nesses
locais de acampamento lhes custara quatro dúzias de barras de
cereal, uma caixa de chocolate e todos os biscoitos de creme de
amendoim.
Antes que ficasse muito tarde, os quatro deram uma pequena
caminhada para longe das fogueiras e das lanternas do
acampamento, até um lugar escuro e quieto onde pudessem se
deitar e olhar maravilhados a Via-Láctea, espantosa e intensa sem
a poluição das luzes da cidade. Mack era capaz de ficar horas
deitado olhando aquela vastidão. Sentia-se incrivelmente pequeno,
mas em paz. De todos os lugares em que a presença de Deus se
fazia sentir, era ali, rodeado pela natureza e sob as estrelas, um
dos mais tocantes. Quase podia ouvir o hino de adoração que os
astros faziam ao Criador, e em seu coração relutante ele
participava do melhor modo possível.
Então voltaram ao acampamento e, depois de várias viagens
aos banheiros, Mack enfiou os três na segurança de seus sacos de
dormir. Rezou brevemente com Josh antes de ir até onde Kate e
Missy estavam esperando. Quando chegou a vez de Missy rezar,
ela quis conversar com o pai.
— Papai, por que ela teve de morrer?
Mack demorou um momento para descobrir do que Missy
estava falando. Percebeu subitamente que a princesa índia devia
estar na cabeça da menina desde cedo, quando ele contara a
história.
— Querida, ela não teve de morrer. Ela escolheu morrer para
salvar seu povo. Eles estavam doentes e ela queria que se
curassem.
Houve um silêncio e Mack soube que outra pergunta estava
se formando no escuro.
— Isso aconteceu mesmo? — A pergunta agora vinha de Kate,
obvia mente interessada na conversa.
Mack pensou antes de falar.
— Não sei, Kate. É uma lenda, e às vezes as lendas são
histórias que ensinam uma lição.
— Então não aconteceu de verdade? — perguntou Missy.
— Pode ter acontecido, querida. Às vezes as lendas nascem de
histórias verdadeiras, coisas que aconteceram de fato.
De novo silêncio, e depois:
— Então a morte de Jesus é uma lenda?
Mack podia ouvir as engrenagens girando na mente de Kate.
— Não, querida, a história de Jesus é verdadeira. E sabe de
uma coisa? Acho que a história da princesa índia provavelmente
também é.
Mack esperou enquanto suas filhas processavam os
pensamentos. Missy foi a próxima a perguntar:
— O Grande Espírito é outro nome para Deus? Você sabe, o
pai de Jesus?
Mack sorriu no escuro. Obviamente as orações noturnas de
Nan estavam surtindo efeito.
— Acho que sim. É um bom nome para Deus, porque ele é
um espírito e é grande.
— Então por que ele é tão mau?
Ah, ali estava a pergunta que viera crescendo na cabecinha
da filha.
— Como assim, Missy?
— Bom, o Grande Espírito fez a princesa pular do penhasco e
fez Jesus morrer numa
cruz. Isso parece muito mau.
Mack ficou travado. Não sabia como responder. Com seis
anos e meio, Missy estava fazendo perguntas com as quais pessoas
sábias haviam lutado durante séculos.
— Querida, Jesus não achava que o pai dele era mau. Achava
que o pai era cheio de amor e que o amava muito. O pai dele não o
fez morrer. Jesus escolheu morrer porque ele e o pai amavam
muito você, eu e todas as pessoas. Ele nos salvou da doença, como
a princesa.
Agora veio o silêncio mais longo e Mack começou a imaginar
que a menina teria caído no sono. Quando ia se inclinar para lhes
dar um beijo, uma vozinha com um tremor perceptível rompeu a
quietude.
— Papai?
— Sim, querida?
— Algum dia eu vou ter de pular de um penhasco?
O coração de Mack doeu quando ele entendeu a verdadeira
questão. Abraçou a menininha e a apertou. Com a voz um pouco
mais rouca do que o usual, respondeu gentilmente:
— Não, querida. Nunca vou pedir para você pular de um
penhasco, nunca, nunca, jamais.
— Então Deus vai me pedir para pular de um penhasco?
— Não, Missy. Ele nunca pediria que você fizesse uma coisa
dessas.
Ela se aninhou mais fundo em seus braços.
— Está bem! Me dá um abraço apertado. Boa noite, papai. Eu
te amo.
— E apagou, caindo num sono profundo embalado por
sonhos bons e doces.
Depois de alguns minutos, Mack a colocou suavemente no
saco de dormir.
— Você está bem, Kate? — sussurrou enquanto lhe dava um
beijo.
— Estou — veio a resposta murmurada. — Pai?
— O que é, querida?
— A Missy faz perguntas boas, não é?
— Com certeza. É uma menininha especial. Você também é,
só que não é mais tão pequenininha. Agora durma, temos um
grande dia pela frente. Lindos sonhos, querida.
— Você também, pai. Te amo demais!
— Te amo também, de todo o coração. Boa noite.
Mack fechou o zíper do reboque ao sair, assoou o nariz e
enxugou as lágrimas que desciam pelo rosto. Fez uma oração
silenciosa de agradecimento a Deus e foi coar um pouco de café.

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