terça-feira, 12 de março de 2013

A Cabana- Capítulo 4 – A grande tristeza

A tristeza é um muro entre dois jardins.
— Khalil Gibran

Mack continuava parado junto à margem, ainda tentando
recuperar o fôlego. Demorou alguns minutos antes de pensar em
Missy. Lembrando-se que ela ficara colorindo o livro, subiu pela
margem até onde podia ver seu acampamento, mas não havia sinal
da menina. Apressou o passo, correndo até a barraca, chamando
seu nome com o máximo de calma que conseguiu. Não houve
resposta. Ela não estava ali. Mesmo com o coração disparado, ele
racionalizou, pensando que na confusão alguém havia cuidado
dela, provavelmente Sarah Madison ou Vicky Ducette. Procurando
controlar a ansiedade e o pânico, foi ao encontro dos novos amigos
e perguntou se podiam ajudá-lo a procurar Missy. Os dois
dirigiram-se rapidamente para seus acampamentos. Jesse
retornou primeiro, anunciando que Sarah não tinha visto Missy
naquela manhã. Acompanhou Mack ao acampamento dos Ducette,
mas, antes de chegarem lá, Emil veio correndo em sua direção
com uma expressão claramente apreensiva no rosto.
— Ninguém viu Missy hoje e também não encontramos
Amber. Será que estão juntas? — Havia uma sugestão de pânico
na pergunta de Emil.
— Tenho certeza de que é isso — disse Mack, tentando se
tranqüilizar e acalmar Emil ao mesmo tempo. — Aonde você acha
que elas podem ter ido?
— Por que não verificamos os banheiros e chuveiros? —
sugeriu Jesse.
— Boa idéia — falou Mack. — Vou olhar no que fica mais
próximo da nossa área, o que meus filhos usam. Por que você e
Emil não verificam o que fica entre as duas áreas?
Eles concordaram e Mack foi numa corrida lenta para os
chuveiros mais próximos, notando pela primeira vez que estava
descalço e sem camisa.
"Que figura devo estar", pensou, e provavelmente teria achado
graça se sua mente não estivesse tão concentrada em Missy.
Quando chegou aos banheiros, perguntou a uma adolescente
que saía da parte feminina se tinha visto uma garotinha de vestido
vermelho lá dentro, ou talvez duas garotas. Ela disse que não
havia notado, mas que olharia de novo. Em menos de um minuto
estava de volta balançando a cabeça.
— Obrigado mesmo assim — disse Mack, e foi para a parte de
trás da construção, onde ficavam os chuveiros. Enquanto virava a
esquina, começou a chamar Missy em voz alta. Mack podia ouvir a
água correndo, mas ninguém respondeu. Imaginando se Missy
estaria em um dos chuveiros, começou a bater na porta de cada
um até obter resposta. Seis cubículos de chuveiro e nada de Missy.
Verificou os do banheiro masculino, mas ela não se encontrava em
lugar nenhum. Correu de volta na direção do acampamento de
Emil, incapaz de rezar qualquer coisa, a não ser repetir "Ah, meu
Deus, me ajude a achá-la... Ah, meu Deus, por favor, me ajude a
achá-la".
Quando o viu, Vicky correu ao seu encontro. Estivera
tentando conter o choro, mas não conseguiu quando se
abraçaram. De repente, Mack desejou desesperadamente que
Nan estivesse ali. Ela saberia o que fazer, pelo menos qual seria a
coisa certa. Ele se sentia totalmente perdido.
— Sarah levou Josh e Kate para o seu acampamento,
portanto não se preocupe com eles — disse Vicky em meio aos
soluços.
"Ah, meu Deus", pensou Mack, percebendo que tinha
esquecido completamente de seus outros dois filhos. "Que tipo de
pai eu sou?"
Mesmo sentindo-se aliviado porque Sarah estava cuidando
deles, desejou ainda mais intensamente que Nan estivesse ali.
Nesse momento, Emil e Jesse apareceram, Emil aparentando
alívio e Jesse parecendo tenso como uma corda esticada.
— Nós a encontramos — exclamou Emil, o rosto se
iluminando e depois ficando sombrio ao perceber o que estava
dizendo. — Quero dizer, encontramos Amber. Ela voltou do banho
que foi tomar em outro lugar, onde havia água quente. Disse que
tinha falado com a mãe, mas Vicky provavelmente não escutou...
— Sua voz parou no ar.
— Mas não encontramos Missy — acrescentou Jesse
rapidamente, respondendo à pergunta mais importante. — Amber
também não a viu hoje.
Emil, no auge da eficiência, assumiu o controle.
— Mack, temos de contatar as autoridades do camping
imediatamente e botar todo mundo procurando Missy. Talvez, no
meio da agitação, ela telha se assustado e se confundido e
simplesmente saiu andando e se perdeu, ou talvez estivesse
tentando nos encontrar e caminhou na direção errada. Você tem
uma foto dela? Talvez haja uma copiadora no Escritório e
poderíamos fazer algumas cópias para economizar tempo.
— É, tenho uma foto na carteira. — Mack enfiou a mão no
bolso de trás e por um segundo entrou em pânico ao não encontrar
nada ali. Achou que poderia estar no fundo do lago Wallowa, mas
então lembrou que a deixara no carro depois da viagem
de teleférico no dia anterior.
Os três voltaram ao acampamento de Mack. Jesse correu na
frente para avisar Sarah que Amber estava em segurança, mas que
Missy não fora encontrada. Chegando ao acampamento, Mack
abraçou Josh e Kate, tentando parecer calmo. Tirando a
roupa molhada, vestiu uma camiseta e jeans, meias secas e um
par de tênis. Sarah prometeu que ela e Vicky ficariam com seus
filhos mais velhos e sussurrou que estava rezando por ele e Missy.
Mack agradeceu dando-lhe um abraço rápido e depois de beijar os
filhos, juntou-se aos outros dois homens que corriam para o
escritório do camping.
A notícia do resgate na água havia chegado à pequena sede e
todos se mostravam animados. O clima mudou rapidamente
quando souberam do desaparecimento de Missy. No escritório
havia uma copiadora e Mack, depois de tirar várias cópias
do retrato da filha, as distribuiu.
O jovem subgerente, Jeremy Bellamy, ofereceu-se para ajudar
na busca. Então eles dividiram o camping em quatro áreas e cada
um saiu levando um mapa, a foto de Missy e um walkie-talkie.
Era um trabalho lento e metódico, lento demais para Mack,
mas ele sabia que esse era o modo mais lógico de encontrá-la se...
se ainda estivesse no camping. Enquanto andava entre barracas e
trailers, rezava e fazia promessas. Tinha consciência de que
prometer coisas a Deus era idiota e irracional, mas não conseguia
evitar. Estava desesperado para ter Missy de volta e sem dúvida
Deus sabia onde ela se encontrava.
Muitos campistas estavam acabando de arrumar suas
bagagens para irem embora.
Ninguém tinha visto Missy ou uma menina parecida com ela.
A pequenos intervalos, cada grupo de busca entrava em contato
com o escritório para saber se havia alguma novidade. Mas não
houve qualquer notícia até quase duas da tarde.
Mack estava terminando de vasculhar sua área quando veio o
chamado pelo walkie-talkie.
Jeremy, que cobria a área mais perto da entrada, achou que
encontrara algum indício. Foram todos ao seu encontro. Mack
chegou por último e viu Emil e Jeremy ouvindo atentamente um
rapaz desconhecido.
Emil disse a Mack rapidamente o que ouvira e o apresentou
ao rapaz. Seu nome era Virgil Thomas e ele estava acampado na
área com alguns colegas desde o início do verão.
Os outros dormiam pesadamente quando Virgil viu uma velha
picape verde-oliva saindo do camping e descendo na direção de
Joseph.
— Mais ou menos a que horas? — perguntou Mack.
— Foi antes do meio-dia, mas não tenho certeza, porque
estava de ressaca.
Mostrando a foto de Missy para o rapaz, Mack perguntou de
modo áspero:
— Você acha que viu essa menina?
Quando o outro cara me mostrou essa foto antes, ela não me
pareceu familiar — respondeu Virgil, olhando de novo. — Mas
então, quando ele disse que ela estava usando um vestido
vermelho-vivo, lembrei que a menininha na picape verde estava
com um vestido dessa cor. Vi que ela estava rindo ou berrando,
não dava para saber. E então tive a impressão de que o motorista
lhe deu um tapa ou a empurrou para baixo, mas acho que
ele também podia estar só brincando.
Mack ficou paralisado. Apesar de assustadora, infelizmente
essa informação era a única que até então fazia sentido. Explicava
por que não haviam encontrado nenhum traço de Missy. Mas tudo
dentro dele não queria que fosse verdade. Virou-se e começou a
correr para o escritório, mas foi contido pela voz de Emil.
— Mack, pára! Nós já falamos com o escritório pelo rádio e
avisamos o xerife de Joseph. Eles vão mandar alguém para cá
agora mesmo e estão emitindo um boletim de busca para a picape.
Nesse momento duas radiopatrulhas entraram no camping. A
primeira foi direto para o escritório e a outra para a área onde os
homens se encontravam. Mack correu ao encontro do policial, um
rapaz de cerca de 30 anos, que se apresentou como Dalton e
começou a ouvir as pessoas.
Nas horas seguintes houve um movimento crescente de
reação ao desaparecimento de Missy.
Expediram uma ordem de busca, bloquearam a auto-estrada
e os guardas florestais da área foram avisados para ficarem
atentos.
Isolaram o acampamento dos Phillips com fitas,
caracterizando-o como uma cena de crime, e todos nas imediações
foram interrogados. Virgil forneceu o máximo de detalhes que pôde
sobre a picape e os ocupantes e a descrição foi enviada a todos os
órgãos policiais mais importantes.
Os oficiais de campo do FBI em Portland, Seattle e Denver
foram alertados. Nan estava a caminho, trazida de carro por sua
melhor amiga, Maryanne. Trouxeram cães rastreadores, mas as
pistas de Missy terminavam no estacionamento próximo,
aumentando a probabilidade de que a história de Virgil fosse
verdadeira.
Depois que os peritos examinaram minuciosamente o
acampamento o policial Dalton pediu que Mack entrasse de novo
na área e observasse tudo com cuidado, em busca de algo
diferente.
Mack sentia-se tão desesperado para ajudar de alguma forma
que, mesmo exausto, concentrou a mente na tentativa de lembrarse
de qualquer detalhe. Com cautela, refez seus passos. O que não
daria em troca para ter a chance de recomeçar o dia desde o início!
Mesmo queimando os dedos e derrubando de novo a massa de
panqueca!
Voltou-se novamente para a tarefa designada, mas nada
parecia diferente do que recordava. Nada havia mudado. Chegou à
mesa onde Missy estivera ocupada colorindo. O livro estava aberto
na mesma página, com uma imagem inacabada da princesa índia
da tribo Multnomah. Os lápis de cera também se encontravam lá,
se bem que o vermelho, a cor predileta de Missy, estivesse
faltando. Mack começou a procurar no chão, onde ele poderia ter
caído.
— Se está procurando o lápis de cera vermelho, nós o
encontramos ali, perto da árvore — disse Dalton, apontando para o
estacionamento. — Ela provavelmente o largou enquanto estava
lutando com... — Sua voz se perdeu no ar.
— Como você sabe que ela estava lutando?
O policial hesitou, mas depois falou, relutante:
— Encontramos um dos sapatos dela nos arbustos, para
onde provavelmente foi chutado. Você não estava aqui na hora, por
isso pedimos ao seu filho para identificá-lo.
A imagem de sua filha lutando com algum monstro pervertido
foi como um soco no estômago. Quase sucumbindo ao negrume
súbito que ameaçava esmagá-lo, Mack se apoiou na mesa para não
desmaiar ou vomitar. Foi então que notou um broche de joaninha
cravado no livro de colorir. Retornou à consciência como se alguém
tivesse aberto um vidro de sais sob seu nariz.
— De quem é isso? — perguntou a Dalton, apontando para o
broche.
— De quem é o quê?
— Esse broche de joaninha! Quem pôs isso aí?
— Nós achamos que fosse de Missy. O broche não estava aí
de manhã?
— Tenho certeza — afirmou Mack, enfático. — Ela não tem
nada assim. Tenho absoluta certeza de que não estava aí de
manhã!
O policial se comunicou pelo rádio e em minutos os peritos
retornaram e levaram o broche. Dalton puxou Mack para um canto
e explicou:
— Se o que o senhor diz é correto, temos de presumir que o
agressor de Missy deixou isso aí de propósito. — Fez uma pausa e
acrescentou:
Sr. Phillips, isso pode ser uma notícia boa ou má.
— Não entendo.
O policial hesitou, tentando decidir se deveria contar a Mack
o que estava pensando. Procurou as palavras certas.
— A boa notícia é que podemos conseguir alguma pista a
partir do broche. É a única prova que temos até agora de que havia
alguém aqui.
— E a má notícia? — Mack prendeu o fôlego.
— Bom, a má notícia, e não estou dizendo que este seja o
caso, é que quem deixa algo assim geralmente tem um objetivo, e
isso pode significar que já fez a mesma coisa antes.
— O quê? — reagiu Mack bruscamente. — Isso significa que
esse cara é uma espécie de maníaco? Esse é algum tipo de sinal
que ele deixa para se identificar, como se estivesse marcando o
território ou algo assim?
A raiva de Mack foi crescendo, mas, antes que explodisse, o
rádio de Dalton tocou, conectando-o ao escritório de campo do FBI
em Portland... ficou atento e ouviu a voz de uma mulher que se
identificava como agente especial. Ela pediu que Dalton
descrevesse o broche em detalhes. Mack acompanhou o policial até
o lugar onde a equipe de polícia havia estabelecido sua base
de operações. O broche estava dentro de um saco transparente, e
de pé, atrás do grupo, ele ficou observando Dalton descrevê-lo.
— É um alfinete com uma joaninha que foi cravado
atravessando algumas páginas de um livro de colorir.
— Por favor, descreva as cores e o número de pontos na
joaninha — orientou a voz pelo rádio.
— Vejamos — disse Dalton, com os olhos quase grudados no
saco. — A joaninha tem uma cabeça preta. E o corpo é vermelho,
com bordas pretas. Há dois pontos pretos no lado esquerdo do
corpo. Faz sentido?
— Perfeitamente. Por favor, continue — disse a voz com
paciência.
— Do lado direito da joaninha há três pontos, de modo que
são cinco ao todo
Houve uma pausa.
— Tem certeza de que são cinco pontos?
— Sim, senhora, são cinco pontos.
— Certo. Agora, policial Dalton, poderia virar o broche e dizer
o que há na parte de baixo da joaninha?
Dalton virou o saco plástico e olhou com cuidado.
— Há algo gravado embaixo, agente. Deixe-me ver. Parece
uma espécie de número de modelo. Humm... C... K... 1-4-6, acho
que é isso. É difícil ver através do saquinho.
Houve silêncio do outro lado. Mack sussurrou para Dalton:
— Pergunte a ela o que isso significa.
O policial hesitou e depois obedeceu.
— Agente? Você está aí?
— Sim, estou. — De repente a voz pareceu cansada e oca. —
Ei, Dalton, há algum lugar isolado onde você e eu possamos
conversar?
Mack assentiu com ênfase e Dalton captou a mensagem.
— Espere um segundo. — Pousou o saco com o broche e saiu
da área, permitindo que Mack o seguisse.
— Pronto, agora estou sozinho. Pode me dizer o que é.
— Estamos tentando pegar esse cara há quase quatro anos,
perseguindo-o em mais de nove estados. Recebeu o apelido de
Matador de Meninas, mas nunca repassamos o detalhe
da joaninha para ninguém, portanto mantenha isso em segredo.
Acreditamos que ele seja responsável pelo seqüestro e morte de
pelo menos quatro crianças até agora, todas meninas, todas com
menos de 10 anos. A cada vez ele acrescenta um ponto à joaninha,
de modo que esta seria a de número cinco. Ele sempre deixa os
broches em algum lugar da área do seqüestro, todos têm o mesmo
número de modelo, mas não conseguimos descobrir de onde eles
vieram originalmente nem encontrar o corpo de nenhuma
das quatro meninas, mas temos bons motivos para acreditar que
nenhuma delas sobreviveu. Todos os crimes aconteceram em
campings ou próximo de campings, perto de um parque estadual
ou uma reserva. O criminoso parece se mover com habilidade
em florestas e montanhas. Não nos deixou, em todos os casos,
absolutamente nada além do broche.
— E o carro? Temos uma descrição bastante boa da picape
verde em que ele fugiu.
— Ah, vocês provavelmente vão encontrá-la. Se for o nosso
cara, ele deve tê-la roubado há um ou dois dias, repintado,
enchido de equipamento para caminhadas, e ela vai
estar totalmente limpa.
Enquanto ouvia a conversa de Dalton com a agente especial,
Mack sentiu o resto de esperança se esvair. Sentou-se frouxo no
chão e enterrou o rosto nas mãos. Pela primeira vez desde o
desaparecimento de Missy permitiu-se considerar o alcance
das possibilidades mais horrendas — assim que isso começou, não
parou mais: imagens de coisas boas e terríveis misturadas num
desfile apavorante. Algumas eram instantâneos abomináveis de
tortura e dor, de monstros e demônios da escuridão mais
profunda, com dedos de arame farpado e toques de navalha, de
Missy gritando pelo pai e ninguém respondendo. Misturados com
esses horrores havia lampejos de outras lembranças: a menina
aprendendo a andar, com o rosto lambuzado de bolo de chocolate,
fazendo caretinhas engraçadas. Sobrepunha-se a todas a imagem
tão recente de Missy caindo no sono, aninhada no colo do pai.
Imagens implacáveis. O que ele diria a Nan? Como isso podia ter
acontecido? Deus, como isso podia ter acontecido?
Algumas horas depois, Mack e seus dois filhos foram de carro
para o hotel, em Joseph.
Os proprietários haviam lhe oferecido um quarto e, enquanto
ele arrumava sua bagagem, a exaustão e o desespero começaram a
dominá-lo. O policial Dalton levara seus filhos a uma lanchonete.
Agora, sentado na beira da cama, Mack dava vazão a todo o seu
sofrimento. Soluços e gemidos de rasgar a alma saíam do âmago
de seu ser, e foi assim que Nan o encontrou. Dois seres feridos que
se abraçaram e choraram desconsoladamente.
Naquela noite, Mack dormiu aos sobressaltos, pois as
imagens continuavam a golpeá-lo como ondas implacáveis contra
um litoral rochoso. Pouco antes do nascer do sol, por fim desistiu.
Vivera em um só dia anos de emoções e agora sentia-se
entorpecido, à deriva num mundo subitamente sem significado.
Depois de protestos consideráveis de Nan, concordaram que
seria melhor ela ir para casa com Josh e Kate. Mack ficaria para
ajudar como pudesse. Simplesmente não conseguiria ir embora,
pensando que Missy talvez estivesse por perto, precisando dele.
A notícia se espalhara rapidamente e amigos começaram a chegar
para ajudá-lo. Criou-se uma forte rede de solidariedade, todos os
conhecidos rezando para que Missy fosse encontrada. Jesse e
Sarah, Emil e Vicky permaneceram o tempo todo desdobrando-se
em cuidados.
Repórteres com seus fotógrafos começaram a aparecer
durante a manhã. Mack não queria enfrentá-los, mas acabou
respondendo às perguntas na esperança de que a divulgação
pudesse ajudar na busca.
Quando ficou evidente que a necessidade de ajuda estava
diminuindo, os Madison desmontaram seu acampamento e vieram
despedir-se. Choraram muito, abraçaram-se longamente e
colocaram-se à disposição para o que fosse necessário. Vicky
Ducette também partiu, mas Emil permaneceu para dar apoio a
Mack. Em meio a toda a tristeza, Kate manteve-se firme, enviando
e recebendo e-mails para que se mantivessem em comunicação
permanente.
Ao meio-dia todas as famílias estavam na estrada. Maryanne
levou Nan e as crianças para casa, onde os parentes estariam
esperando. Mack e Emil foram com o policial Dalton, que
passaram a chamar de Tommy, para Joseph, onde se dirigiram à
delegacia.
Agora vinha a parte mais difícil: a espera. Mack sentia que
estava andando em câmara lenta dentro do olho de um furacão O
grupo do FBI chegou no meio da tarde e logo ficou claro que a
pessoa encarregada era a agente especial Wikowsky, uma
mulher pequena e magra cheia de energia, de quem Mack gostou
no mesmo instante. Ela permitiu que ele participasse de todas as
providências e informes.
Depois de estabelecer o centro de comando no hotel, o FBI
pediu a Mack uma entrevista formal. A agente Wikowsky levantouse
de trás da mesa onde estava trabalhando e estendeu a mão.
Quando Mack ia apertá-la, a agente envolveu as mãos dele com as
suas e sorriu afetuosamente.
Senhor Phillips, peço desculpas por não lhe ter dado até
agora a atenção que merece. Estamos vivendo uma turbulência,
estabelecendo comunicações com todas as agências policiais
envolvidas na tentativa de resgatar Missy. Lamento muito que
tenhamos nos conhecido nessas circunstâncias.
Mack suspirou fundo.
— Por favor, me chame de Mack.
— Bem, então me chame de Sam, que é a forma abreviada de
Samantha. Mack relaxou um pouco na cadeira, vendo-a examinar
rapidamente algumas pastas cheias de papéis.
— Mack, está disposto a responder a algumas perguntas? —
ela perguntou sem levantar a cabeça.
— Farei o máximo possível — ele afirmou, aliviado pela
oportunidade de fazer alguma coisa.
— Bom! Não vou obrigá-lo a repassar todos os detalhes.
Estou com os relatórios sobre tudo o que você já contou, mas
tenho umas coisas importantes para examinarmos juntos. — Ela o
olhou nos olhos.
— Qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar —
concordou Mack. No momento estou me sentindo bastante
impotente.
— Mack, entendo como você se sente, mas sua presença é
importante. Acredite, todos aqui estão dispostos a fazer o máximo
possível para resgatar Missy.
Obrigado — foi tudo que Mack conseguiu dizer, olhando para
o chão. As emoções pareciam à flor da pele e qualquer gesto de
gentileza abria as comportas para as lágrimas saírem.
— Mack — ela continuou —, você notou alguma coisa
estranha ao redor de sua família nestes últimos dias?
Mack ficou surpreso e se recostou na cadeira.
— Quer dizer que ele estava nos rondando?
— Não, ele parece escolher as vítimas ao acaso, mas todas
eram mais menos da idade da sua filha, com cor de cabelo
semelhante. Achamos que ele as descobre um ou dois dias antes e
espera, vigiando de perto até encontrar o momento oportuno. Você
viu alguém estranho próximo do lago? Talvez junto aos banheiros?
Mack se encolheu ao pensar que seus filhos estariam sendo
vigiados. Esquadrinhou a mente, mas não descobriu nada.
— Desculpe, não consigo lembrar...
— Você parou em algum lugar enquanto ia para o camping
ou notou alguém estranho quando estava fazendo caminhadas?
— Nós paramos na cachoeira Multnomah, vindo para cá, e
estivemos em toda a região nos últimos três dias, mas não me
lembro de ter visto ninguém que parecesse estranho. Quem
pensaria...
— Exatamente, Mack, tenha paciência. Algo pode voltar à sua
mente mais tarde. Mesmo que pareça pequeno ou irrelevante, por
favor, nos conte. — Ela olhou outro papel na mesa. — Que tal uma
picape verde-oliva? Você notou algo assim enquanto estava
por aqui?
Mack revirou a memória.
— Realmente não me lembro de ter visto nada do tipo.
A agente especial Wikowsky continuou a interrogar Mack
durante os 15 minutos seguintes, mas não conseguiu despertar a
memória dele o suficiente para descobrir algo útil. Por fim, fechou
o caderno e se levantou estendendo a mão.
— Mack, mais uma vez, lamento o que aconteceu com Missy.
Se descobrirmos alguma coisa, eu o informarei imediatamente.
Às cinco da tarde finalmente chegou o primeiro informe
promissor e a agente Wikowsky colocou Mack imediatamente a
par. Dois casais haviam passado por uma picape verde-oliva que
correspondia à descrição do veículo que estavam procurando.
Eles estavam em um trecho estreito da estrada e tiveram que
dar marcha a ré até um lugar mais largo para permitir a passagem
da picape. Notaram que na carroceria havia várias latas de
gasolina, além de uma boa quantidade de material de
acampamento.
Estranharam que o motorista tivesse se curvado na direção
do carona, como se procurasse alguma coisa no chão, e estivesse
usando um casaco pesado num dia tão quente. Acharam graça
daquilo e seguiram em frente.
Quando essa notícia chegou, a tensão aumentou na
delegacia. Tudo haviam descoberto até agora se encaixava no modo
de agir do Matador de Meninas, e Mack foi informado.
Com a noite se aproximando rapidamente, iniciou-se uma
discussão sobre a melhor alternativa: fazer uma perseguição
imediata ou esperar até a manhã seguinte logo ao nascer do dia.
Todos pareciam profundamente afetados com a situação.
De pé nos fundos da sala, Mack ouvia com impaciência a
discussão, aflito para que se tomasse logo uma providência. Seu
desejo era chamar Tommy e ir pessoalmente atrás do assassino.
Era como se cada minuto contasse Depois de um tempo que
pareceu excessivamente longo para Mack, todos concordaram em
dar início à perseguição. Mack ligou rapidamente para falar com
Nan e partiu com Tommy. Agora só lhe restava rezar:
— Santo Deus, por favor, por favor, por favor, cuide da minha
Missy, proteja-a, não deixe que nada de mal lhe aconteça.
Lagrimas desciam por seu rosto e molhavam a camisa.
* * *
Por volta das 7 horas, o comboio de radiopatrulhas, utilitários
do picapes com cães e alguns veículos da Guarda Florestal seguiu
pela auto-estrada até entrar na Reserva.
Mack ficou satisfeito por viajar com alguém que conhecia a
área. As estradas, com freqüentes curvas estreitas beirando
precipícios, ficavam ainda mais traiçoeiras na escuridão da noite.
A velocidade foi diminuindo até parecer que estavam se
arrastando.
Por fim, passaram pelo ponto onde a picape verde tinha sido
vista pela última vez e um quilômetro e meio depois chegaram a
uma bifurcação. Ali, como fora planejado a caravana se dividiu em
duas, com um pequeno grupo indo para o norte com a agente
especial Wikowsky e os demais, inclusive Mack, Emil e Tommy,
indo na direção sudeste. Alguns quilômetros difíceis mais tarde
esse grupo se dividiu outra vez, e nesse ponto os esforços de busca
ficaram ainda mais lentos. Agora os rastreadores estavam a pé,
apoiados por luzes fortes, enquanto procuravam sinais de
atividade recente nas estradas.
Quase duas horas mais tarde, Tommy recebeu um chamado
de Wikowsky. A cerca de 15 quilômetros da bifurcação onde
tinham se separado, uma estrada antiga e sem nome saía da
principal. Era praticamente impossível de se ver no escuro e cheia
de buracos.
Eles a teriam ignorado se a luz de um dos rastreadores não
tivesse se refletido numa calota de veículo. Debaixo do pó da
estrada havia manchas de tinta verde. A calota provavelmente fora
perdida quando a picape passou por um dos muitos buracos
enormes do caminho.
O grupo de Tommy voltou imediatamente. O coração de Mack
batia aceleradamente com um começo de esperança. Talvez, por
algum milagre, Missy ainda estivesse viva.
Vinte minutos depois, outra ligação de Wikowsky informava
que haviam encontrado a picape debaixo de uma engenhosa
armação de galhos e arbustos.
A equipe de Mack levou quase três horas para alcançar a
primeira equipe e, nesse ponto, tudo estava acabado. Os cães
haviam descoberto uma trilha de caça que descia por cerca de um
quilômetro e meio até um pequeno vale oculto. Ali encontraram
uma cabana em ruínas à beira de um lago límpido alimentado por
um riacho cascateante.
Cerca de um século antes aquilo fora provavelmente a casa
de um colono, mas desde então provavelmente servia só como
abrigo para algum caçador ocasional.
Quando Mack e seus amigos chegaram, o céu estava
começando a clarear. Um acampamento-base fora montado a certa
distância da pequena cabana para preservar a cena do crime.
Todos se reuniram e começaram a planejar a estratégia do dia.
A agente especial Samantha Wikowsky estava sentada diante
de uma mesa dobrável examinando mapas quando Mack apareceu.
Seus olhos expressavam tristeza e ternura, mas suas palavras
foram totalmente profissionais.
— Mack, nós encontramos uma coisa, mas não é boa.
Ele procurou as palavras certas.
— Encontraram Missy? — Ele temia terrivelmente a resposta,
mas estava desesperado para ouvi-la.
— Não, não encontramos. — Sam parou e começou a se
levantar. Mas preciso que você identifique uma coisa que
encontramos na cabana. Preciso saber se era... — ela se conteve,
mas já falara no passado. Quero dizer, se é dela.
Sentiu que sua represa interna estava prestes a arrebentar.
Vamos ver isso agora — murmurou baixinho. — Quero
resolver logo.
Mack sentiu Emil e Tommy segurando seus braços enquanto
seguiam a agente especial pelo curto caminho até a cabana. Três
homens adultos de braços dados numa solidariedade especial,
andando juntos em direção ao seu pior pesadelo.
Um membro da equipe de perícia abriu a porta da cabana
para deixá-los entrar.
Refletores alimentados por um gerador iluminavam cada
parte da sala. Havia prateleiras nas paredes, uma mesa velha,
cadeiras e um sofá. Mack viu imediatamente o que
viera identificar. Virando-se, desmoronou nos braços dos dois
amigos e começou a chorar incontrolavelmente. No chão, perto da
lareira, estava o vestido de Missy, rasgado e encharcado de
sangue.
* * *
Para Mack, os dias e semanas seguintes se tornaram um
borrão de vistas que entorpeciam as emoções. Por fim, um funeral
dedicado com um pequeno caixão vazio e um desfile interminável
de tristes, ninguém sabendo o que dizer. Em algum momento, nas
que se seguiram, Mack iniciou o lento e doloroso reencontro da
vida cotidiana.
Aparentemente o Matador de Meninas recebera o crédito pela
quinta vítima, Melissa Anne Phillips. Assim como nos outros
quatro casos, as autoridades não encontraram o corpo da vítima,
embora grupos de busca tivessem revirado a floresta durante dias.
Como em todas as outras, o matador não deixara nenhuma pista
que pudesse ser seguida, só o broche. Era como se estivessem
lidando com um fantasma.
Em algum ponto do processo, Mack procurou emergir da dor
e do sofrimento, pelo menos com sua família. Eles haviam perdido
uma irmã e uma filha e seria terrível também perderem um pai e
um marido. Ainda que todos tivessem sido
profundamente golpeados pela tragédia, Kate parecia a mais
afetada, escondendo-se numa casca como uma tartaruga para se
proteger de algo potencialmente perigoso. Mack e
Nan preocupavam-se cada vez mais com ela, mas não conseguiam
encontrar as palavras adequadas para penetrar na fortaleza que a
garota estava construindo ao redor de si. As tentativas de conversa
se transformavam em monólogos, como se algo tivesse
morrido dentro dela e agora a estivesse corroendo lentamente por
dentro, derramando-se às vezes em palavras amargas ou num
silêncio deprimido.
Josh se comunicava freqüentemente com Amber, o que o
ajudava a extravasar a dor. Além disso, estava bastante ocupado
preparando-se para a formatura no ensino médio.
A Grande Tristeza havia baixado como uma nuvem e, em
graus diferentes, cobria todos os que tinham conhecido Missy.
Mack e Nan enfrentavam juntos o tormento da perda, sentindo-se
mais próximos do que nunca. Nan repetia seguidamente que não
culpava Mack de modo algum pelo que acontecera. Mack, porém,
levou muito mais tempo para se livrar de todos os "se" que o
levavam ao desespero. Se ele tivesse decidido não levar as crianças
naquela viagem; se tivesse recusado quando elas pediram para
usar a canoa; se tivesse ido embora na véspera; se, se, se. Não ter
podido enterrar o corpo de Missy ampliava seu fracasso como pai.
O fato de ela ainda estar em algum lugar, sozinha na floresta,
assombrava-o todos os dias. Agora, três anos e meio depois, Missy
era considerada oficialmente vítima de assassinato. A vida nunca
mais seria a mesma. A ausência de Missy criara um vazio absurdo.
A tragédia também havia aumentado a fenda no
relacionamento de Mack com Deus, mas ele não se dava conta
dessa separação crescente. Em vez disso, tentava abraçar uma fé
estóica e desprovida de sentimentos que lhe trazia algum conforto
e paz, porém não eliminava os pesadelos em que se via com os pés
presos na lama e sem voz para dar os gritos que salvariam sua
preciosa Missy. Aos poucos os pesadelos foram se tornando menos
freqüentes e os momentos de alegria começaram a despontar,
fazendo Mack sentir-se culpado.
Assim, receber o bilhete assinado Papai, dizendo para
encontrá-lo na cabana, causou-lhe um profundo impacto. Será que
Deus escreve bilhetes? E por que na cabana — o ícone de sua dor
mais profunda? Certamente Deus teria lugares melhores onde se
encontrar com ele. Um pensamento sombrio chegou a atravessar
sua mente: o assassino o estaria provocando ou atraindo para
longe com a intenção de deixar sua família desprotegida. Talvez
fosse somente uma brincadeira cruel. Mas por que estava assinado
"Papai"?
Por mais irracional que parecesse, Mack não conseguia deixar
de pensar que talvez o bilhete viesse mesmo de Deus. Quanto mais
pensava. mais confuso e irritado ia ficando.
Quem havia mandado a porcaria do bilhete? Fosse quem
fosse, Mack tinha a sensação de que estavam brincando com ele.
E, de qualquer modo, de que adiantava? Mas, apesar da raiva e da
depressão, Mack sabia que precisava de respostas. Percebeu que
estava travado e que as orações e os hinos dos domingos não
serviam mais, se é que já haviam servido. A espiritualidade do
claustro não parecia mudar nada na vida das pessoas que ele
conhecia, a não ser, talvez, na de Nan. Mas ela era especial. Mack
estava farto de Deus e da religião, farto de todos os pequenos
clubes sociais religiosos que não pareciam fazer nenhuma
diferença expressiva nem provocar qualquer mudança real. Mack
certamente desejava mais.
Porém não sabia que estava a ponto de conseguir muito mais
do que havia pedido.

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