quarta-feira, 13 de março de 2013

A Cabana- Capítulo 8 – Um café da manhã de campeões

"Crescer significa mudar e mudar envolve
riscos, uma passagem do conhecido para o
desconhecido."
— Autor desconhecido

Quando chegou no quarto, Mack descobriu que as roupas
que havia deixado no carro estavam dobradas em cima da cômoda
ou penduradas no armário. Achou engraçado encontrar uma Bíblia
na mesinha-de-cabeceira. Escancarou a janela para deixar que o
ar da noite entrasse livremente, algo que Nan jamais tolerava em
casa porque tinha medo de aranhas e de qualquer coisa rastejante.
Aninhado como uma criança pequena debaixo do grosso edredom,
havia lido apenas dois versículos da Bíblia quando o livro saiu de
sua mão, a luz se apagou, alguém deu-lhe um beijo no rosto e ele
foi levantado suavemente do chão, num sonho em que voava.
Quem nunca voou assim talvez não acredite que seja
possível, mas no fundo sente um pouco de inveja. Havia anos que
ele não tinha esse tipo de sonho, pelo menos desde que a
Grande Tristeza baixara, mas nessa noite Mack voou alto na noite
estrelada, através do ar límpido e frio, sem qualquer desconforto.
Sobrevoou lagos e rios, atravessou um litoral oceânico e
várias ilhotas cercadas de recifes.
Por mais estranho que pareça, Mack aprendera com seus
sonhos a voar erguendo-se do chão sem ser sustentado por nada
— sem asas, sem qualquer tipo de aparelho, apenas ele. Os
vôos inicialmente o elevavam a alguns centímetros do chão, por
causa do medo de cair. Aos poucos ele foi adquirindo confiança e
se alçando mais alto, descobrindo que a queda não era dolorosa,
apenas um pequeno ricochete em câmara lenta. Com o tempo,
aprendeu a ascender até as nuvens, cobrir vastas distâncias e
pousar suavemente.
Enquanto planava à vontade sobre montanhas escarpadas e
praias de um branco cristalino, usufruía a maravilha do sonho de
voar. Subitamente, algo o agarrou pelo tornozelo e o puxou para
baixo. Em questão de segundos foi arrastado das alturas e
jogado violentamente, de cara, numa estrada lamacenta e muito
esburacada. O trovão sacudia o solo e a chuva o encharcou
instantaneamente até os ossos. E tudo veio de novo, raios
iluminando o rosto de sua filha enquanto ela gritava "Papai! " sem
emitir nenhum som e se virava e corria para a escuridão, o vestido
vermelho visível apenas por alguns clarões breves e depois
sumindo. Mack lutou com todas as forças para se soltar da lama e
da água, mas foi sendo sugado para mais fundo. No momento em
que estava submergindo, acordou ofegando.
Com o coração disparado e a imaginação presa às imagens do
pesadelo, demorou alguns instantes para perceber que fora
somente um sonho. Mas, mesmo que o sonho fosse sumindo da
consciência, as emoções permaneceram. O sonho havia provocado
a Grande Tristeza e, antes que ele pudesse sair da cama, estava de
novo procurando um caminho através do desespero que viera
devorando muitos dos seus dias.
Olhou ao redor do quarto, no cinza opaco de antes do
amanhecer que chegava sorrateiramente do outro lado dos
postigos da janela. Aquele não era seu quarto, nada parecia
familiar. Onde estava? Pense, Mack, pense! Então se lembrou.
Ainda estava na cabana com aquelas três figuras interessantes e
todas as três achavam que eram Deus.
— Isso não pode estar acontecendo de verdade — resmungou,
enquanto punha os pés para fora da cama e se sentava na beira
com a cabeça nas mãos. Pensou no dia anterior e de novo sentiu
medo de estar enlouquecendo. Como nunca fora uma pessoa muito
chegada a contatos físicos e a emoções, Papai — ou quem quer que
fosse — o deixara nervoso, e ele não fazia idéia do que pensar a
respeito de Sarayu. Admitiu que gostava um bocado de Jesus, mas
ele parecia o menos divino dos três.
Soltou um suspiro fundo e pesado. E, se Deus estava
realmente ali, por que não havia afastado seus pesadelos?
Ficar se debatendo com um dilema não iria ajudar. Por isso
foi até o banheiro, onde, para sua perplexidade, tudo de que
precisava para tomar um banho de chuveiro fora cuidadosamente
arrumado. Demorou um tempo no calor da água, depois
barbeando-se e, de volta ao quarto, vestindo-se.
O aroma penetrante e sedutor do café o atraiu para a xícara
fumegante que o esperava na mesa junto à porta. Tomando um
gole, abriu os postigos e ficou olhando pela janela do quarto para o
lago que apenas vislumbrara como uma sombra na noite anterior.
Era perfeito, liso como vidro, a não ser pelo salto ocasional de
alguma truta, lançando círculos de ondas em miniatura que se
irradiavam pela superfície de um azul profundo até serem
lentamente absorvidas de volta na superfície maior. Avaliou que a
margem mais distante estaria a uns 800 metros. O orvalho
brilhava em toda parte como diamantes refletindo o amor do sol.
As três canoas que repousavam tranqüilas ao longo do cais
pareciam convidativas, mas Mack afastou o pensamento. Canoas
traziam muitas lembranças dolorosas.
O cais o fez lembrar-se da noite anterior. Será que realmente
havia se deitado ali com Aquele que fizera o universo? Mack
balançou a cabeça, perplexo. O que estava acontecendo? Quem
eram eles e o que queriam? O que quer que fosse, Mack
estava certo de que não tinha nada para dar.
O cheiro de ovos e bacon ondulou para dentro do quarto,
interrompendo seus pensamentos. Ao entrar na sala, ouviu o som
de uma música conhecida, de Bruce Cockburn, vindo da cozinha,
e uma voz aguda de mulher acompanhando bastante bem: "Ah,
amor que incendeia o sol, mantenha-me aceso." Papai surgiu com
pratos cheios de panquecas, batatas fritas e algum tipo de verdura.
Vestia uma roupa comprida e larga, de aparência africana, com
uma faixa multicolorida no cabelo. Parecia radiante —
quase reluzindo.
— Sabe — exclamou ela —, adoro as músicas dessa criança!
Gosto especialmente do Bruce, você sabe. — Ela olhou para Mack,
que estava se sentando à mesa.
Mack assentiu, com o apetite aumentando a cada segundo.
— É — continuou ela —, e sei que você também gosta dele.
Mack sorriu. Era verdade. Cockburn era o favorito de toda a
família havia anos.
— Então, querido — perguntou Papai, enquanto se ocupava
com alguma coisa. — Como foram seus sonhos esta noite?
Algumas vezes os sonhos são importantes, você sabe. Podem ser
um modo de abrir a janela e deixar que o ar poluído saia.
Mack sabia que isso era um convite para destrancar a porta
de seus terrores, mas no momento não estava pronto para
convidá-la a entrar naquele buraco com ele.
— Dormi bem, obrigado — respondeu e rapidamente mudou
de assunto. — Quer dizer que Bruce é seu predileto?
Ela parou e olhou-o.
— Mackenzie, eu não tenho prediletos; apenas gosto
especialmente dele.
— Você parece gostar especialmente de um monte de pessoas
— observou Mack. — E há alguém de quem você não goste
especialmente?
Ela ergueu a cabeça e revirou os olhos como se estivesse
examinando mentalmente o catálogo de cada ser criado.
— Não, não consigo encontrar ninguém. Acho que sou assim.
Mack ficou interessado.
— Nunca fica furiosa com alguém?
— Imagina! Que pai não fica? Os filhos se metem em várias
confusões que deixam a gente furiosa. Não gosto de muitas das
escolhas que eles fazem, mas essa minha raiva é uma expressão de
amor. Eu amo aqueles de quem estou com raiva tanto quanto
aqueles de quem não estou.
— Mas... — Mack fez uma pausa. — E a sua ira? Parece que,
se você pretende ser o Deus Todo-Poderoso, precisa ser muito mais
irado.
— É mesmo?
— É o que eu acho. Você não vivia matando gente na Bíblia?
Você não parece se encaixar naquele modelo.
— Entendo como tudo isso deve deixar você desorientado,
Mack. Mas o único que está pretendendo ser alguma coisa aqui é
você. Eu sou o que sou. Não estou tentando me encaixar em
modelo nenhum.
— Mas está pedindo que eu acredite que você é Deus, e
simplesmente não vejo... — Mack não sabia como terminar a frase,
por isso desistiu.
— Não estou pedindo que acredite em nada, mas vou lhe
dizer que você vai achar este dia muito mais fácil se simplesmente
aceitá-lo como é, em vez de tentar encaixá-lo em suas
idéias preconcebidas.
— Mas o Deus que me ensinaram derramou grandes doses de
fúria, mandou o dilúvio e lançou pessoas num lago de fogo. —
Mack podia sentir sua raiva profunda emergindo de novo,
fazendo brotar as perguntas, e se chateou um pouco com sua falta
de controle. Mas perguntou mesmo assim: — Honestamente, você
não gosta de castigar aqueles que a desapontam?
Diante disso, Papai interrompeu suas ocupações e virou-se
para Mack. Ele pôde ver uma tristeza profunda nos olhos dela.
— Não sou quem você pensa, Mackenzie. Não preciso castigar
as pessoas pelos pecados. O pecado é o próprio castigo, pois
devora as pessoas por dentro. Meu objetivo não é castigar. Minha
alegria é curar.
— Não entendo...
— Está certo. Não entende mesmo — disse ela com um
sorriso meio triste. — Mas, afinal de contas, você ainda não
terminou.
Nesse momento, Jesus e Sarayu entraram rindo pela porta
dos fundos, entretidos numa conversa. Jesus chegou vestido
praticamente como no dia anterior, com jeans e uma camisa azulclara
que fazia seus olhos castanhos se destacarem. Sarayu, por
outro lado, vestia algo tão fino e rendado que praticamente voava à
mais tênue brisa. Padrões de arco-íris tremeluziam e se alteravam
a cada gesto dela. Mack se perguntou se em algum momento ela
parava completamente de se mexer. Duvidou.
Papai inclinou-se para ficar com os olhos na mesma altura
dos de Mack.
— Você faz algumas perguntas interessantes. Chegaremos a
elas, prometo. Mas agora vamos aproveitar o café da manhã.
Mack assentiu de novo um pouco sem graça enquanto voltava
a atenção para a comida. Estava de fato com fome e havia muita
coisa apetitosa.
— Obrigado pelo café da manhã — disse a Papai, enquanto
Jesus e Sarayu ocupavam seus lugares.
— O quê? — reagiu ela num horror fingido. — Você não vai
abaixar a cabeça e fechar os olhos?
— Ela começou a andar em direção à cozinha, fazendo
pequenos muxoxos de reprovação. — O que está acontecendo com
este mundo? Meu bem, não há de quê. — Um instante depois
retornou trazendo outra tigela com uma comida fumegante que
desprendia um aroma maravilhoso e convidativo.
Passaram as tigelas uns para os outros e Mack ficou
fascinado enquanto olhava e ouvia Papai participar da conversa de
Jesus e Sarayu. Estavam falando algo sobre conciliar uma família
em crise, mas não foi o que eles falavam que atraiu Mack e sim
como eles se relacionavam. Nunca vira três pessoas
compartilharem sentimentos com tamanha simplicidade e beleza.
Cada um parecia mais interessado nos outros do que em si
mesmo.
— Então o que acha, Mack? — perguntou Jesus, fazendo um
gesto em sua direção.
— Não faço a mínima idéia do que vocês estão falando —
respondeu Mack com a boca cheia daquelas verduras saborosas.
— Mas adoro o modo como falam.
— Uau! — disse Papai, que vinha retornando da cozinha com
outro prato. — Vá com calma nessas verduras, rapaz. Se não tiver
cuidado, elas podem dar uma bela dor de barriga.
— Certo, tentarei me lembrar — disse Mack servindo-se do
prato que ela lhe oferecia. Depois, virando-se de novo para Jesus,
acrescentou: — Adoro o modo como vocês se tratam.
Certamente eu não esperaria que Deus fosse desse jeito.
— Como assim?
— Bom, sei que vocês são um só e coisa e tal, e que são três.
Mas vocês se tratam de uma forma tão amável! Um não manda
mais do que os outros dois?
Os três se entreolharam como se nunca tivessem pensado
nisso.
— Quero dizer — continuou Mack rapidamente —, sempre
pensei em Deus, o Pai, como uma espécie de chefe, e em Jesus
como o que seguia as ordens, vocês sabem, sendo obediente. Não
sei exatamente como o Espírito Santo se encaixa. Ele... quero
dizer, ela... ah... — Mack tentou não olhar para Sarayu enquanto
procurava as palavras. — Tanto faz, o Espírito sempre me pareceu
meio... é...
— Um Espírito livre? — sugeriu Papai.
— Exatamente, um Espírito livre, mas ainda assim sob a
orientação do Pai. Faz sentido?
Jesus olhou para Papai, tentando com alguma dificuldade
manter uma aparência séria.
— Faz sentido para você, Abba? Francamente, não tenho a
mínima idéia do que este homem está falando.
Papai franziu o rosto, como se estivesse se concentrando.
— Não, eu estava tentando entender, mas sinto muito. Para
mim isso não tem pé nem cabeça.
— Vocês sabem do que estou falando. — Mack ficou meio
frustrado. — Estou falando de quem está no comando. Vocês não
têm uma cadeia de comando?
— Cadeia de comando? Isso parece medonho! — disse Jesus.
— No mínimo opressivo — acrescentou Papai, enquanto os
outros dois começavam a rir.
Então, virando-se para Mack, cantou: — "Mesmo sendo
correntes de ouro, ainda são correntes."
— Ah, não se incomode com esses dois — interrompeu
Sarayu, estendendo a mão para confortá-lo. — Eles só estão
brincando com você. Na verdade, este é um assunto que
nos interessa.
Mack assentiu, aliviado e meio chateado por ter de novo
perdido o controle.
— Mackenzie, não existe conceito de autoridade superior
entre nós, apenas de unidade. Estamos num círculo de
relacionamento e não numa cadeia de comando. O que você
está vendo aqui é um relacionamento sem qualquer camada de
poder. Não precisamos exercer poder um sobre o outro porque
sempre estamos procurando o melhor. A hierarquia não faria
sentido entre nós. Na verdade, isso é um problema de vocês, não
nosso.
— Verdade? Como assim?
— Os humanos estão tão perdidos e estragados que para
vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar
ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.
— Mas qualquer instituição humana, desde as políticas até
as empresariais, até mesmo o casamento, é governada por esse
tipo de pensamento. É a trama do nosso tecido social — declarou
Mack.
— Que desperdício! — disse Papai, pegando o prato vazio e
indo para a cozinha.
— Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil para vocês
experimentar o verdadeiro relacionamento — acrescentou Jesus. —
Assim que montam uma hierarquia, vocês precisam de regras para
protegê-la e administrá-la, e então precisam de leis e da
aplicação das leis, e acabam criando algum tipo de cadeia de
comando que destrói o relacionamento, em vez de promovê-lo.
Raramente vocês vivem o relacionamento fora do poder.
A hierarquia impõe leis e regras e vocês acabam perdendo a
maravilha do relacionamento que nós pretendemos para vocês.
— Bom — disse Mack com sarcasmo, recostando-se na
cadeira. — Certamente parece que nos adaptamos muito bem a
isso.
Sarayu foi rápida em responder:
— Não confunda adaptação com intenção, ou sedução com
realidade.
— Então... ah, por favor, poderia me passar mais um pouco
dessa verdura? ... Então nós fomos seduzidos por essa
preocupação com a autoridade?
— De certo modo, sim! — respondeu Papai, passando o prato
de verduras para Mack com uma certa relutância. — Só estou
cuidando de você, filho.
Sarayu continuou:
— Quando vocês escolhem a independência nos
relacionamentos tornam-se perigosos uns para os outros. As
pessoas se tornam objetos a serem manipulados ou
administrados para a felicidade de alguém. A autoridade, como
vocês geralmente pensam nela, é meramente a desculpa que o forte
usa para fazer com que os outros se sujeitem ao que ele quer.
— Ela não é útil para impedir que as pessoas lutem
interminavelmente ou se machuquem?
— Às vezes. Mas num mundo egoísta também é usada para
infligir grandes danos.
— Mas vocês não a usam para conter o mal?
— Nós respeitamos cuidadosamente as suas escolhas e por
isso trabalhamos dentro dos seus sistemas, ao mesmo tempo que
procuramos libertá-los deles — continuou Papai. — A Criação foi
levada por um caminho muito diferente daquele que desejávamos.
Em seu mundo, o valor do indivíduo é constantemente medido em
comparação com a sobrevivência do sistema, seja ele político,
econômico, social ou religioso; na verdade, de qualquer sistema.
Primeiro uma pessoa, depois umas poucas e finalmente muitas
são facilmente sacrificadas pelo bem e pela permanência do
sistema. De uma forma ou de outra, isso está por trás de cada luta
pelo poder, de cada preconceito, de cada guerra e de cada abuso de
relacionamento. A "vontade de poder e independência" se tornou
tão disseminada que agora é considerada normal.
— E não é?
— É o paradigma humano — acrescentou Papai, após
retornar com mais comida. — É como água para os peixes, tão
natural que permanece sem ser vista e questionada. É a matriz,
uma trama diabólica em que vocês estão presos sem esperança,
mesmo que completamente inconscientes da sua existência.
Jesus continuou:
— Como glória máxima da Criação, vocês foram feitos à
nossa imagem. Se realmente tivessem aprendido a considerar que
as preocupações dos outros têm tanto valor quanto as suas, não
haveria necessidade de hierarquia.
Mack se recostou na cadeira, perplexo com as implicações do
que ouvia.
— Então vocês estão me dizendo que sempre que nós,
humanos, usamos o poder para nos proteger...
— Estão cedendo à matriz e não a nós — terminou Jesus:
E agora — exclamou Sarayu — completamos o círculo,
voltando a uma das minhas declarações iniciais: vocês, humanos,
estão tão perdidos e estragados que não conseguem compreender
um relacionamento sem hierarquia. Por isso acham que Deus se
relaciona dentro de uma hierarquia, tal como vocês. Mas não
somos assim.
— E como podemos mudar isso? Se abrirmos mão do poder e
da hierarquia, as pessoas simplesmente vão nos usar.
— Provavelmente sim. Mas não estamos pedindo que faça
isso com os outros, Mack.
Pedimos que faça conosco. Este é o único lugar onde isso
pode começar. Não vamos usar você.
— Mack — disse Papai com uma intensidade que o fez
escutar com muita atenção —, queremos compartilhar com você o
amor, a alegria, a liberdade e a luz que já conhecemos em nós.
Criamos vocês, os humanos, para estarem num relacionamento
de igual para igual conosco e para se juntarem ao nosso círculo de
amor. Por mais difícil que seja entender isso, tudo que aconteceu
está ocorrendo exatamente segundo esse propósito, sem violar
qualquer escolha ou vontade.
— Como você pode dizer isso diante de toda a dor deste
mundo, de todas as guerras e desastres que destroem milhares? —
A voz de Mack baixou até um sussurro. — E qual é o valor de uma
menininha ser assassinada por um tarado? — Ali estava de novo a
pergunta que abria um buraco a fogo em sua alma. — Vocês
podem não causar as coisas, mas certamente não as impedem.
— Mackenzie — respondeu Papai com ternura,
aparentemente não se ofendendo com a acusação —, há milhões
de motivos para permitir a dor, a mágoa e o sofrimento, em vez de
erradicá-los, mas a maioria desses motivos só pode ser entendida
dentro da história de cada pessoa. Eu não sou má. Vocês é que
abraçam o medo, a dor, o poder e os direitos em seus
relacionamentos. Mas suas escolhas também não são mais fortes
do que os meus propósitos, e eu usarei cada escolha que vocês
fizerem para o bem final e para o resultado mais amoroso.
Veja só — interveio Sarayu —, os humanos feridos centram
sua vida ao redor .de coisas que parecem boas para eles,
procurando compensação. Mas isso não irá preenchê-los nem
libertá-los. Eles são viciados em poder, ou na ilusão de segurança
que o poder oferece. Quando acontece um desastre, essas mesmas
pessoas vão se voltar contra os falsos poderes nos quais
confiavam. Em seu desapontamento, se suavizam com relação
a mim ou se tornam mais ousados em sua independência. Se você
ao menos pudesse ver como tudo isso terminará e o que
alcançaremos sem violar qualquer vontade humana, entenderia.
Um dia entenderá.
— Mas o custo! — Mack estava aparvalhado. — Vejam o
custo, toda a dor, todo o sofrimento, tudo que é tão terrível e mau.
— Ele parou e olhou para a mesa. — E vejam o que custou para
vocês. Valeu a pena?
— Sim! — foi a resposta unânime e jubilosa dos três.
— Mas como podem dizer isso? Desse jeito parece que o fim
justifica os meios, que para obter o que querem vocês são capazes
de qualquer coisa, mesmo que isso custe a vida de bilhões de
pessoas.
— Mackenzie. — Era a voz de Papai outra vez, especialmente
gentil e terna. — Você realmente ainda não entende. Tenta dar
sentido ao mundo em que vive baseado numa visão pequena e
incompleta da realidade. É como olhar um desfile pelo
buraco minúsculo da dor, da mágoa, do egocentrismo e do poder e
acreditar que você está sozinho e é insignificante. Tudo isso
contém mentiras poderosas. Você vê a dor e a morte como males
definitivos, e Deus como o traidor definitivo, ou talvez, na melhor
das hipóteses, como fundamentalmente indigno de confiança. Você
dita os termos, julga meus atos e me declara culpado.
Parou um instante e depois prosseguiu:
— A verdadeira falha implícita de sua vida, Mackenzie, é que
você não acha que eu sou bom. Se soubesse que eu sou bom e que
tudo — os meios, os fins e todos os processos das vidas individuais
— é coberto por minha bondade, mesmo que nem sempre entenda
o que estou fazendo, confiaria em mim. Mas não confia.
— Não? — perguntou Mack, mas não era realmente uma
pergunta. Era uma declaração, e ele sabia disso. Os outros
pareciam saber também e a mesa permaneceu em silêncio.
Sarayu disse:
— Mackenzie, você não pode "produzir" confiança, assim
como não pode "fazer" humildade. Ela existe ou não. A confiança é
fruto de um relacionamento em que você sabe que é amado. Como
não sabe que eu o amo, não pode confiar em mim.
De novo se fez silêncio. Por fim Mack olhou para Papai e
disse:
— Não sei como mudar isso.
— Você não pode mudar, pelo menos sozinho, mas juntos
vamos ver essa mudança acontecer. Por enquanto só quero que
você esteja comigo e descubra que nosso relacionamento não tem a
ver com seu desempenho nem com qualquer obrigação de
me agradar. Não sou um valentão nem uma divindade egocêntrica
e exigente que insiste que as coisas sejam feitas do jeito que eu
quero. Sou boa e só desejo o que é melhor para você. Não é pela
culpa, pela condenação ou pela coerção que você vai encontrar
isso. É apenas praticando um relacionamento de amor. E eu amo
você.
Sarayu se levantou da mesa e olhou diretamente para Mack.
— Mackenzie, se você quiser, eu gostaria que viesse me
ajudar no jardim. Há coisas que preciso fazer lá antes da
celebração de amanhã. Podemos continuar nossa conversa lá fora,
por favor?
— Claro — respondeu Mack, levantando-se. — Um último
comentário — ele acrescentou. — Simplesmente não consigo
imaginar um resultado final que justifique tudo isso.
Mackenzie. — Papai se levantou da cadeira e rodeou a mesa
para lhe dar um abraço — apertado. — Não estamos justificando.
Estamos libertando.

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